Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

21 abril 2016

O Mandarim





Obra marcada por uma viagem ao reino da fantasia, registo incomum em Eça, assim como a moralidade latente, mais uma surpresa deste grande escritor, que se revela filósofo, na medida em que é um pensador da condição humana e de tudo aquilo que nos move.

A nota moralista está presente logo no início, ainda antes de começar a narrativa:

«A luta pelo dinheiro é santa - porque é, no fundo, a luta pela liberdade: mas até uma certa soma. Passada ela - é a tristonha e baixa gula do ouro».

E, perto do fim, um aviso de Teodoro, o narrador e personagem principal, já que o romance (ou novela) é escrito na primeira pessoa, em flash-back:

«Só sabe bem o pão que dia a dia ganham as nossas mãos: nunca mates o Mandarim!»

Eça segue aqui o mito da venda da alma ao diabo, talvez inspirado por Fausto, de Goethe. Basta tocar uma campainha para matar o Mandarim, que aliás já é muito velho, e herdar-lhe a imensa fortuna. Uma personagem misteriosa convence Teodoro a dar o passo definitivo (o próprio diabo?). Porém, ele é incapaz de se manter lúcido, depois de herdar os milhões, cai numa vida frustrante, de tão ociosa e fútil, ao mesmo tempo que é atacado por sentimentos de culpa.

No desejo imperativo de fazer alguma coisa pela família do Mandarim, caída na miséria, Teodoro parte para a China, império por onde vagueia, sem encontrar quem procura e expondo-se a perigos. Grande parte dos chineses é apresentada aqui como ignorante e violenta, o que, aos olhos de hoje, roça o racismo. Numa leitura atenta, porém, constata-se que Eça não critica os chineses em particular, mas sim todos aqueles que são ignorantes, desconfiam de estrangeiros e se deixam levar pela cobiça.

Uma leitura fascinante, marcada pela habitual ironia deste génio da literatura.

Nota: li a versão digital do Projecto Adamastor, download gratuito aqui.


Sem comentários: