Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

5 de agosto de 2011

Os cães do Laboratório

Na Alemanha, de um modo geral, respeitam-se mais os animais, como seres vivos que dividem o planeta connosco. Os cães, por exemplo, estão em todo o lado, nas férias, com os donos, quer seja no campo, ou na praia, são bem-vindos na maior parte dos hotéis. Ninguém acha estranho se eu entrar com a minha cadela no autocarro, no comboio, em lojas onde não haja produtos alimentares expostos, ou até, no restaurante. Claro que também há casos de abandono e maus tratos. E há algo de que normalmente não se fala, mas que, por isso, não deixa de existir: cães usados em laboratórios de experiências.

O jornal local do "concelho" (Landkreis) de Stade, onde vivo, publicou uma reportagem sobre uma senhora que adoptou três cadelas beagle oriundas de um laboratório. Nas suas palavras, muita gente hesita em dar este passo, na crença de que os animais têm traumas irreparáveis ou tenham sido infectados por doenças susceptíveis de se transmitirem aos humanos. Na verdade, a maior parte deles é usada para testar rações ou desparasitantes.

De qualquer maneira, é preciso ter paciência e tempo para lhes dar uma boa educação, pois, embora já sejam adultos, ainda não aprenderam coisas básicas, como não fazer as necessidades dentro de casa, ou andar com trela. Mas a senhora está encantada com o poder de adaptação, a vontade de aprender e a fidelidade das cadelas que levou para casa.

Através delas, a senhora travou amizade com um casal que também adoptou um desses animais. Encontram-se todas as semanas, num campo de treino, onde os cães, além de serem educados, têm oportunidade de conviverem uns com os outros.



Ao deparar com a boa disposição das duas senhoras na fotografia, uma de 64, outra de 74 anos, atingiu-me um outro pensamento. Elas são felizes com os seus animais e, por sua vez, estes encontraram um lar, onde são amados. Numa altura em que se fala tanto do isolamento dos idosos, não será esta uma boa ideia para dar um novo sentido à própria vida, ajudando inocentes?

Dá que pensar, gente!

Ainda para mais, quando se lêem coisas destas:

Um estudo realizado pela Associação de Psicologia dos Estados Unidos mostrou que os animais de estimação podem contribuir para melhorar a condição emocional das pessoas. Os resultados mostraram que os participantes que tinham animais de estimação, como cão e gato, possuíam maior qualidade de vida, maior equilíbrio emocional e maior capacidade de se relacionar com outros, quando comparados com os que não tinham animais.

4 de agosto de 2011

Até um dia

O coração inquieto é a raiz da peregrinação. No ser humano vive uma saudade que o força para além da rotina do quotidiano e da estreiteza do seu ambiente habitual.

Ao deparar com esta frase de Santo Agostinho de Hippo, ou Hipona, lembrei-me de uma cena da "Viagem", de Tiago R Cardoso:

“- Raios, quem me estará ligar a esta hora?”

Aquele toque de telefone e dada a hora, tinha-lhe parecido um grito nos ouvidos. Quase sem abrir os olhos tacteou a mesinha de cabeceira em busca do culpado de tanto barulho.

“- Estou…”, disse arrastando a voz, era uma forma de transmitir desde logo o incomodo do telefonema.

“- Desculpa lá jovem….”

“- És tu, que se passa? É grave?”

“- Não pá, apenas para te dizer que vou embora.”

Aquilo serviu de mola para ele se levantar, achou que não tinha ouvido bem.

“- Repete, vais embora?”

“- Sim jovem…”, o interlocutor fez uma pausa como que a ganhar fôlego, “Acordei há pouco tempo e quando me olhei no espelho não me reconheci…”, fez-se silencio.

“- Essa não percebi.”

“- Sabes, olhei no espelho e ali estava alguém que não me dizia nada, era eu mas não era eu.”

“- Lá estás tu, outra vez?”

“- Desta vez fui mais longe, peguei de seguida num papel e tentei escrever coisas relevantes que eu tenha feito, não enchi sequer meia folha. Resumindo, consegui escrever a minha vida numa assentada.
Nasci, andei na escola, arranjei um trabalho, depois outro, vivo o dia a dia como toda a gente, quer dizer, vivo é uma questão de opinião.

“- É pá, então não exageres”, tentou aliviar a conversa.

“-Estou deslocado de tudo, não me enquadro em nada, sinto-me incompleto, mesmo as coisas que gostaria de fazer não as consigo fazer. Acho que chegou a altura de procurar o meu “Eu”, por isso vou embora.”

“- Estás mas é deprimido”, arrependeu-se de seguida mas nem teve tempo de compor a frase.

“- Não estou deprimido, sinto-me apenas incompleto, a vida tem de ser mais do que isto, mais do que trabalhar e sonhar com um dia melhor, a vida é para ser vivida e não um mar de sonhos adiados.”

“- Então que vais fazer?”, perguntou já compreendendo a situação, naquele momento ele também estava no mesmo barco.

“- Sei lá, vou viajar, procurar algo novo, sei lá… arriscar ler um Saramago, escrever, fotografar, sei lá… conhecer algo diferente da rotina que tenho.”,

“- Se queres saber? Fazes bem!”, avançou já com o assunto totalmente encaixado, “E não te esqueças de ir dando noticias.”

“- Evidentemente que sim, até um dia."

3 de agosto de 2011

Nas Entrelinhas - Star-FM

A rubrica Nas Entrelinhas, da Rádio Star-FM, de 2 de Agosto, incluiu uma pequena conversa comigo, acerca do livro Afonso Henriques - o Homem. Tentei trazer para aqui a gravação, mas não consegui. Para quem quer ouvir, clicar aqui e escolher na lista (para já, está em primeiro lugar, pois foi a última transmissão).



2 de agosto de 2011

"The Last Place on Earth"

Incrível, esta blogosfera!!!



Há coisas que nos marcam, que nunca esquecemos. Perante este post, lembrei-me da série que tinha visto, há uns bons anos. Já não me lembrava do nome, apenas das imagens da luta pela sobrevivência de Robert Scott e seus companheiros. Depois de uma pesquisa rápida, encontrei a fotografia tirada à chegada ao Pólo Sul e escrevi um texto sobre isso.

Há dias, o comentador António Guerreiro deixou lá uns links. Fiquei céptica, pensei que ele apontasse para algum documentário mais recente. Mas não! Trata-se realmente da "minha" série, intitulada "The Last Place on Earth", produzida em 1985 (Wikipedia). Entretanto, encontrei o DVD, que se pode adquirir na Amazon.


Revi imagens que pensei que nunca mais veria e vieram-me outros aspectos à memória. Por exemplo, que eu era a única, lá em casa, a ver essas séries inglesas. Às vezes, perguntavam-me o que é que eu estava a ver, mas, quando eu explicava, encolhiam os ombros, desinteressados. Chegavam a olhar-me com aquela expressão perplexa de quem diz: e perdes tempo com isso? Felizmente, não calhou mais ninguém querer assistir a outro programa à mesma hora, eu não tinha a mínima hipótese contra o meu pai ou o meu irmão. Só havia um aparelho de TV lá em casa e ainda não tínhamos vídeo-gravador. Outros tempos...

Já agora, deixo também o link, onde se pode ver o videoclip de entrada e excertos da série. Vale a pena ver o genérico, com apenas um minuto e dez segundos de duração. Embora um dos comentadores critique a música, (sinal do tempo em que a série foi produzida, penso eu) gosto do jogo de imagens.

Muito obrigada, António Guerreiro!

Dedico este post também à Teresa, apreciadora das "boas séries inglesas".

P:S. uma chamada de atenção para o blogue Montalvo e as Ciências do Nosso Tempo, um excelente divulgador de cultura, que há muito faz parte da barra lateral aqui do Andanças. Já tentei felicitar o seu autor, JDACT, mas o blogue não permite comentários e não há nenhum contacto de email. Enfim, pode ser que ele leia este meu texto. Parabéns, caro JDACT!

1 de agosto de 2011

Entrevista (2)

É já amanhã, 2 de Agosto, que vai ser transmitida a minha entrevista à Rádio Star-FM, sobre Afonso Henriques - o Homem. A rubrica chama-se Nas Entrelinhas, a entrevista pode ser ouvida às 8h 40m e às 9h 40m.

Portugal no seu Melhor # 3

Porto, Verão 2009

30 de julho de 2011

Filhos

Não tendo filhos, vejo-me sempre numa posição um pouco complicada, quando quero dar a minha opinião sobre crianças, ou questões de educação. Por isso, deixo falar a Zélia Parreira, mãe de três filhos. A propósito das notícias de maus tratos que algumas amas infligiam às crianças a seu cargo, a Zélia escreveu um post que devia pôr muita gente a pensar:

Porque razão temos filhos?

Porque razão insistimos em trazer vidas a este planeta das quais não somos capazes de cuidar?

Porque razão as despejamos nas escolas, nas creches e em amas de madrugada e só voltamos já de noite?

Porque razão não estamos disponíveis para perceber que os nossos filhos estão tristes, acabrunhados, violentados?

Porque razão nós, seres imperfeitos e manifestamente incapazes de lidar com a realidade que vivemos, permanentemente afogados em mágoas e reclamações sobre tudo e sobre todos, insistimos em acreditar que os nossos filhos vão ser seres lindos e perfeitos, sempre lavados e penteados, sempre bem-comportados à mesa, que nunca vão chorar para não incomodar, que nunca vão fazer asneiras, que nunca vão ter problemas, nem angústias, que nunca vão ser infelizes?

Porque razão insistimos em ter filhos se depois permitimos que isto lhes aconteça mesmo debaixo dos nossos olhos e ainda insistimos em negar para não assumirmos que falhámos, que estivemos distraídos, que não vimos os sinais, que não soubemos ser bons pais?

Só uma das partes é inocente, tanto nesta história como nas outras histórias de crianças e jovens perdidos na vida, entregues ao abandono e à violência que têm vindo a público. São eles, as crianças e os jovens, e no entanto, são os únicos que foram punidos. De resto - as amas, os pais das crianças, os professores e todos nós, que construímos esta sociedade onde só o superficial importa - somos todos culpados. Que ninguém se atreva a lavar as mãos como Pilatos.

29 de julho de 2011

Ainda a propósito dos livros esgotados

A opinião que o Manuel Cardoso escreveu sobre Afonso Henriques - o Homem (entretanto, também publicada no Destante) despertou a curiosidade de algumas pessoas, como Iceman, que tentou adquirir o livro, mas disseram-lhe que estava esgotado (inclusive a própria editora!). Ele perguntou aqui no Andanças quando sairia a 3ª edição. Irritada com este absurdo de dar um livro por esgotado, quando há exemplares armazenados num qualquer depósito, decidi publicar um post a elucidar o caso.

Iceman iniciou um périplo por várias livrarias da capital e arredores e acabou por encontrar o livro. Já Candido, um comentador do 2711, apesar de ter encomendado os livros na Fnac de Cascais (nas suas palavras, depois da minha insistência de que não estavam esgotados) acabou por receber, dias depois, a mensagem de que não seria possível efectuar o seu pedido de livros!!! Pelos vistos, neste caso, não adianta ir à Fnac...

Outros comentadores partilharam as suas experiências e trocaram-se impressões sobre o comportamento dos funcionários nas diferentes livrarias, desde o livreiro solícito e bem informado, ao estudante que só lá está a ganhar uns cobres e que não terá muito interesse em deixar boa impressão no cliente. João Raposo falou da boa experiência que teve na Leitura do Bom Sucesso, que, apesar de ter o seu stock esgotado, confirmou que havia exemplares noutras lojas do grupo, oferecendo-se para os arranjar. A Teresa, além de dizer que este não era caso único, também foi convenientemente informada na Bulhosa das Torres Gémeas. Por fim, também a Laura veio partilhar a sua boa experiência na Barata.

De qualquer modo, chamo a atenção para o seguinte: se há casos em que os livros são dado como esgotados, quando ainda existem exemplares que, anos depois, são destruídos pelas editoras, algo está errado neste negócio!

28 de julho de 2011

Como é que Deus deixa acontecer?

É o tipo de pergunta que surge, perante catástrofes como a do Japão. Tremores de terra, tsunamis, chuvas torrenciais com desabamento de terras, secas monumentais… Espalham a morte e a miséria. Ficamos perplexos. Como é que Deus consente?

Perante um 11 de Setembro, há quem culpar: os islamitas, obcecados com a jihad, tão diferentes de nós cristãos, tolerantes e democráticos. Em casos destes, raramente nos perguntamos como é que Deus deixa acontecer, pois trata-se da “força do mal”, quiçá guiada pelo Diabo. Deus sempre teve os seus problemas com o Diabo, é a eterna luta entre o bem e o mal. E nós estamos do lado do bem, claro!

E agora? Quando um cristão, nascido e criado num dos países mais civilizados e democráticos do mundo, causa tal banho de sangue? Ontem, ouvi dizer a um jornalista norueguês, cujo local de trabalho se situa na zona onde a bomba rebentou e que assistiu a tudo de perto: “No fundo, todos nós sabemos que um atentado terrorista pode acontecer em qualquer lado, a todo o momento. Mas o que se passou na ilha de Utoya é indescritível, é horrível.”

Um cristão, bem parecido, extermina, em nome da religião, dezenas de crianças e jovens, indiscriminadamente, como se de um jogo de computador se tratasse…

Como é que Deus deixa acontecer?

(Texto originalmente publicado em 2711).

26 de julho de 2011

Entrevista (1)



A propósito de o romance Afonso Henriques - o Homem servir de apoio à divulgação da Viagem Medieval, a realizar em Santa Maria da Feira, de 28 de Julho a 7 de Agosto, dei uma entrevista à Rádio Star FM, a transmitir na terça-feira, 2 de Agosto, às 8h 40m e às 9h 40m (programa Nas Entrelinhas).


24 de julho de 2011

A Cruzada das Crianças



A minha última leitura de ficção foi um romance histórico em língua alemã, que não está traduzido em português. Resolvi, mesmo assim, referi-lo aqui, porque foca um tema pouco conhecido, a Cruzada das Crianças, um acontecimento envolvido em lendas, sendo difícil separar a realidade da ficção.

No ano de 1212, dois grupos de dezenas de milhares de crianças, um em França e outro na Alemanha, fizeram-se ao caminho, em direcção à Terra Santa, a fim de libertarem Jerusalém apenas com a força das suas preces, que iriam converter os infiéis!

As origens destes movimentos permanecem na penumbra, diz-se que várias crianças, na solidão do seu ofício de pastoras, foram abordadas por anjos, ou pelo próprio Cristo, que as predispuseram a iniciar a aventura, prometendo-lhes que, assim que chegassem ao Mar Mediterrâneo, este se abriria, como aconteceu a Moisés, na Bíblia, permitindo-lhes caminhar até à Terra Santa!

A Cruzada das Crianças, por Gustave Doré


Recordemos que, na Idade Média, havia muita pobreza e miséria, o povo analfabeto agarrava-se a todas as promessas de uma vida melhor. As crianças vindas de Colónia e outras partes da Alemanha, guiadas por um miúdo-profeta, que teria tido a visita de um desses enviados de Deus, aventuraram-se pelos Alpes, sem qualquer tipo de meios. Claro que a maior parte morreu de fome, exaustão, ou congelada, muitas delas caíram em precipícios.

Também é claro que o Mediterrâneo não se dividiu. Terá havido, então, tentativas de arranjar embarcações, que levassem as crianças que ainda resistiam até à Palestina. Os únicos marinheiros que se dispuseram a transportá-las de graça eram piratas sem escrúpulos, que as venderam  como escravas, em Alexandria.

Apesar do tema, o romance não me impressionou. Houve partes que me empolgaram, outras, que me desiludiram, pelas ingenuidade e facilidade na resolução de conflitos. Além disso, não me agradou que a autora responsabilizasse os franciscanos pela iniciação da Cruzada (seriam eles que estariam por trás das "aparições"), seguindo a tese de um historiador, Thomas Ritter, que ela, aliás, tem o cuidado de designar, num posfácio, como sendo polémica. Seguindo esta linha, há uma cena final, em que São Francisco de Assis nos é apresentado como um fanático sem escrúpulos, totalmente alheio à realidade, defendendo a justeza da iniciativa (mesmo depois de terem acontecido as desgraças). Enfim, não me pareceu verosímil.

22 de julho de 2011

Opinião "A Cruz de Esmeraldas"

Graças à máquina de busca do Google, deparei com uma opinião sobre o meu livro A Cruz de Esmeraldas, de que não tinha conhecimento, embora date do passado 6 de Dezembro. Na verdade, tenho desprezado um pouco este meu pequeno romance. E, no entanto, foi o primeiro que publiquei.

A ideia surgiu-me quando ainda escrevia o Afonso Henriques, pois a Conquista de Lisboa, só por si, é um tema com muito potencial. E, para não cismar nas recusas que recebia, meti mãos à obra.

Intitulei-o, inicialmente, A Moura e o Cruzado. E acabei por o enviar para um Concurso Literário, com o nome sugestivo de "O meu 1º Best-Seller", levado a cabo pelos hipermercados Modelo/Continente, em parceria com a editora Asa, que ainda não pertencia à Leya. Parecia-me que A Moura e o Cruzado seria mais indicado para aquele tipo de concurso, por ser mais pequeno e menos ambicioso do que o Afonso Henriques.

Estávamos em fins de 2006. E, em 16 Julho de 2007, o dia do meu aniversário (é verdade!), recebi um telefonema a dizer que tinha ganho o concurso e que o livro ia ser publicado!



Não me vou alargar a explicar como fui, depois, parar à Ésquilo e porque é que se mudou o título. O certo é que a Joana Dias, do blogue Páginas com Memória, o leu e deu a sua opinião, da qual transcrevo um extracto:

O livro prendeu-me da primeira à ultima página, sem tempos mortos, transportando-me numa viagem no tempo inesquecível que daqui a pouco tempo vou querer repetir com uma nova leitura ao livro. E são poucos os livros que me levam a lê-los uma segunda vez.



Obrigada à Joana Dias!

20 de julho de 2011

A Conquista do Pólo Sul

A sua «corrida contra-relógio» com o inglês Robert Scott, que Amundsen acabou por vencer ao chegar em primeiro lugar à meta, às três da tarde do dia 14 de Dezembro de 1911, é uma das aventuras mais admiráveis do século XX. Amundsen e Scott protagonizaram um duelo inesquecível. No entanto, a bandeira que ficou no extremo mais austral da Terra foi a norueguesa». In Gayban Grafie.

Sim, foi o norueguês quem ganhou. Mas, para mim, o herói foi o vencido: Robert Scott. A sua amargura é visível na fotografia que, ainda assim, a equipa inglesa tirou, para a posteridade, quando atingiu o Pólo Sul, em Janeiro de 1912, e constatou que tinha perdido a corrida.

Scott é o do meio, atrás

Robert Scott embarcou na aventura, deu o tudo por tudo, mas não conseguiu chegar em primeiro lugar. Nada mais lhe restava do que regressar, depois de tirar a fotografia. Essa viagem de regresso prova que se pode viver o inferno num dos lugares mais frios do mundo. Vi uma série televisiva, já há muitos anos, em que se dava conta da luta daqueles homens, pelo meio de tempestades de neve e temperaturas gélidas, usando um equipamento longe de ser eficaz. Tinham milhares de quilómetros a percorrer e teriam de o fazer antes de começar o Inverno antárctico, em Março.

As forças foram faltando, o frio e as tempestades de neve surgiram mais cedo do que o esperado, membros da equipa morreram pelo caminho. Um desgaste incrível, não só físico, como psicológico. Quando já só restavam Robert Scott e dois companheiros e se encontravam a apenas 11 milhas de uma estação de reabastecimento, os três estavam esgotados, já só se mexiam por instinto, como se fossem tele-comandados. Montaram a tenda no meio de uma tempestade, deitaram-se aconchegados uns nos outros... E nunca mais se levantaram.

Impressionante são as últimas linhas que Scott escreveu no seu diário, a muito custo, quando se apercebeu de que os seus dois companheiros, encostados a ele, um de cada lado, já haviam partido deste mundo. Essas últimas linhas incluíam uma carta a sua mulher, Kathleen Scott. O casal tinha um filho de apenas três anos.





"Dear it is not easy to write because of the cold — 70 degrees below zero and nothing but the shelter of our tent — you know I have loved you, you know my thoughts must have constantly dwelt on you and oh dear me you must know that quite the worst aspect of this situation is the thought that I shall not see you again."


A tenda só foi encontrada vários meses mais tarde, depois do Inverno austral, que acaba em Setembro. E só o foi por sorte, pois estava quase completamente soterrada pela neve. Os três cadáveres estavam congelados lá dentro. As mãos de Robert Scott ainda seguravam a caneta e o diário.

A descrição minuciosa da aventura, as fotografias, todo o drama foram assim recuperados para a Humanidade.