Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

31 de agosto de 2020

Morte no Porto*

 

Depois de Barco Negro, li mais este policial de Mario Lima, pseudónimo de um escritor alemão residente em Portugal. Confirma-se o afeto que ele tem pelo nosso país, nomeadamente, pelo Norte, onde vive. Assim como se confirma o seu talento para transmitir a atmosfera da cidade do Porto. Em Barco Negro, transportava-nos para o meio de um inverno frio e chuvoso, à volta da refinaria de Leça da Palmeira; em Morte no Porto*, vemo-nos num verão escaldante, nas margens do rio Douro, tendo por companhia os barcos rabelos enfeitados de galhardetes. Insisto em que é muito interessante ver o nosso país através dos olhos de um estrangeiro, pois apercebemo-nos de pormenores únicos que os nossos autores raramente mencionam, talvez por os acharem banais. Quando se realçam, porém, constatamos que são tudo menos isso. Quem, entre nós, escreveria que esses barcos típicos se enfeitam de galhardetes? Apenas se mencionariam os rabelos no rio Douro.

Mais uma vez, Mario Lima consegue construir suspense, num policial bem pesquisado, envolvendo cidadãos brasileiros residentes no Porto. O autor entra mesmo na cena mafiosa de São Paulo, pois os crimes, em Portugal, têm a ver com ajustes de contas entre bandos. A PJ do Porto é apresentada como um grupo dinâmico, chefiado pelo inspetor Fonseca, na busca da verdade, digna de surgir em qualquer série do género. Quando, porém, olho para a sede daquela polícia, com uma das entradas mais feias que vi em toda a minha vida, pergunto-me se a PJ será assim tão glamorosa...

A única experiência que tive com a judite portuense foi o presenciar de rusgas que se faziam a um café de Vila Nova de Gaia, no início dos anos 1980. Esse café ficava às portas do liceu que eu frequentava e era um autêntico centro de tráfico de droga. Nós, os alunos do liceu, íamos lá tomar café, ou lanchar, convivendo lado a lado com os traficantes e os consumidores de charros (que eram fumados com toda a descontração, como se de simples cigarros se tratasse), chegávamos mesmo a ser revistados pela PJ. Tudo isto seria impensável, nos nossos dias, só mesmo possível num país ainda a viver o rescaldo de uma revolução.

Nessas alturas, os agentes da PJ (também femininos), pareciam-me pessoas fechadas, mesmo embrutecidas. Surgiam à paisana, mas não enganavam ninguém, com a sua maneira de se moverem e de olharem. E o seu vestuário também destoava, muito formal e tão fora de moda… Bem, lembremos que estas cenas foram presenciadas há cerca de quarenta anos e a PJ talvez possuísse ainda tiques de certas polícias do tempo da ditadura. Muito terá mudado, entretanto. E, pela maneira como Mario Lima escreve, eu diria que conhece o meio.

Além disso, não esqueçamos que se trata de ficção, um interessante e bem construído policial, digno de ser traduzido para português. Quem sabe alguma editora portuguesa ainda se venha a interessar por Mario Lima…

 

*Título traduzido por mim, do alemão (Tod in Porto), por não haver versão portuguesa.

17 de agosto de 2020

O Alienista e Outros Contos


Nestes vinte contos, Machado de Assis abre-nos a janela para o século XIX brasileiro, tanto citadino, como provinciano. No seu poder de observação, na sua ironia e na sua crítica velada aos costumes, fez-me lembrar Eça. Mas o mundo de Machado de Assis é outro, um mundo ainda sob um regime esclavagista.

São livros destes que nos ensinam a entender melhor certas revoltas de hoje em dia. Depois de ler um conto como O Caso da Vara, fica-se com um nó na garganta e com vontade de pedir desculpa aos povos escravizados pelos brancos. Machado de Assis não emite qualquer juízo, limita-se a apresentar-nos as situações. É quanto basta.

Mas também a crítica à sociedade hipócrita e materialista é magistral, por exemplo, em O Alienista, onde se pode ainda observar os efeitos da manipulação e o desejo que as pessoas têm em acreditar em alguém que lhes parece poderoso e capaz de resolver os seus problemas.

Há ainda lugar para desejos adolescentes, para a importância de manter as aparências e para a tragédia, em A Cartomante, que mais uma vez espelha a insegurança humana.

Como se costuma dizer, nada como ler os clássicos. Para nos entendermos melhor, assim como o mundo que nos rodeia.


3 de agosto de 2020

Na Casa do Rei Dragão - A Saga do Rei Dragão - Vol. I


Li este livro com bastante curiosidade, pois, muitas vezes, penso em escrever “Fantasia”, ou seja, situar um enredo num local imaginado, com características medievais. Tenho até muitas ideias para um livro (ou vários) desse género, mas confesso que é um tipo de literatura a que não me tenho dedicado. Na Feira do Livro do Porto, há alguns anos, encontrei os dois primeiros volumes da Trilogia do Rei Dragão, de Stephen Lawhead, por um preço baratinho. 

Falo hoje do primeiro volume. O facto de o autor ser conhecido e ter escrito romances históricos (que aliás ainda não li) aumentou-me a expectativa. Fiquei, porém, desiludida. O livro lê-se bem, cria suspense, há várias aventuras e peripécias. Mas apresenta soluções banais para conflitos complicados. Além disso, o autor não prima pela verosimilhança e nem tudo tem a sua razão de ser. O problema é que eu detesto quando me apresentam situações empolgantes e cheias de perigo, mas desnecessárias, ou mal engendradas. Dou um exemplo:

O protagonista é um jovem inexperiente que se vê envolvido numa missão perigosa. O destino guia-o a um guerreiro famoso, mas aposentado, por assim dizer, que resolve acompanhá-lo, pois apercebe-se de que o rapaz não está de todo preparado para os perigos que terá de enfrentar. Ora, logo na sua primeira aventura, é o guerreiro experiente que se vê em grandes apuros e o rapaz obrigado a salvá-lo. Aqui, o leitor pergunta-se porque diabo o jovem não cumpre a sua missão sozinho. Enfim, ele precisará mais tarde da ajuda do guerreiro. Mas não tanto como isso…

 Mesmo tratando-se de literatura juvenil, penso que deveria haver mais cuidado na construção do enredo. O segundo volume, que eu planeara ler de seguida, terá de esperar, dando, para já, lugar a literatura mais exigente.


25 de julho de 2020

A importância dos Jogos

Tóquio 2020.jpg

Não fosse a pandemia e ter-se-ia realizado ontem a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Tóquio. E dei comigo a pensar que o cancelamento e/ou adiamento de eventos deste tipo podem ser bem mais prejudiciais do que pensamos.

No início do confinamento, ainda houve quem pensasse (eu incluída) que a Humanidade saísse reforçada desta crise. Seríamos levados a refletir sobre os nossos hábitos e sobre aquilo que realmente queremos para o nosso mundo. Mera ilusão. A falta de contacto social e de convívio, o desespero e a insegurança, têm o efeito contrário, ou seja, a polarização e o radicalismo. Não mudámos nada desde a Idade Média, continuamos a acreditar naqueles que nos prometem fórmulas milagrosas. E continuamos a procurar bodes expiatórios, crendo em teorias da conspiração, como antigamente se acreditou que os judeus eram os culpados pela Peste Negra, pois teriam envenenado as fontes.

Eventos como os Jogos Olímpicos não deixam de ser polémicos, seja por implicarem custos astronómicos, seja por transmitirem uma harmonia mundial fictícia, seja pelos escândalos de doping. Penso, porém, que são responsáveis por um importante efeito psicológico. Em que outra cerimónia vemos quase todos os países do mundo a festejarem juntos? As imagens que nos chegam mostram pessoas de todas as nacionalidades e etnias em celebração e convívio. E nós, os do outro lado do ecrã, também vibramos, quanto mais não seja, quando o nosso próprio país entra no estádio, cheios de expectativa pelos resultados, mal podemos esperar pelas competições. Onde há aqui lugar para pensamentos negativos?

Os vencedores dão a volta ao estádio com a sua bandeira pelas costas e os espetadores seus compatriotas acham-se os melhores do mundo. Mas é uma alegria saudável, até porque é comum os detentores do pódio abraçarem-se, confraternizarem, juntando bandeiras das mais diversas origens. Assim como se veem vencedores a consolar perdedores. E quantas vezes o estádio vibra com algum/a atleta, seja de que nacionalidade for, perante uma performance desportiva de exceção?

Penso que imagens dessas são importantes, não duvido que têm um efeito psicológico positivo. Certo, os racistas não deixam de o ser. Mas dão menos importância a essa sua característica, até a escondem, porque no fundo, sabem que está errada. É essa a mensagem dos Jogos. A pandemia, por outro lado, faz sobressair o ódio por aquilo que é diferente. Temos medo, queremos distância, centramo-nos na desgraça do nosso país sem ligar aos outros, procuramos bodes expiatórios, veneramos quem confirma certos comportamentos e tendências, que em situação normal, se desaprovam. A vergonha cai.

Também o adiamento do Campeonato Europeu de Futebol masculino para 2021 pode ser mais grave do que pensamos. Mau grado toda a corrupção existente no futebol, este é igualmente um evento que cria uma atmosfera muito especial, apesar das rivalidades. Quem não se lembra do ambiente de exceção (no bom sentido) gerado no nosso país, em 2004? Claro, há hooligans e cenas menos bonitas nos estádios. Também as existem nos Jogos Olímpicos (incluindo um grave atentado em Munique). No cômputo geral, porém, o resultado é francamente positivo. As imagens de eventos desportivos que juntam nações são uma espécie de pausa nos ódios e nos rancores. E pausas dessas fazem muita falta.

 

P.S. O próprio Festival da Eurovisão, odiado por tantos,  é bem mais benéfico para a saúde mental de milhões de pessoas do que se pensa.


Nota: texto igualmente publicado aqui.

20 de julho de 2020

Saramaguíada


Este romance de Pedro Guilherme-Moreira é um original e interessante projeto literário, uma viagem ao mundo das ideias de vários escritores e ao interior dos seus livros. Deixo aqui o ponto de partida nas palavras do próprio autor:

 «Em casos raros, numa ou noutra cidade, há farmácias ao lado de livrarias. Ora, nestes casos, as coisas que as pessoas pensam quando estão dentro das livrarias, se não forem ideias frívolas e tiverem uma certa consistência, vão aparecer numa sala secreta dentro da farmácia. O farmacêutico de serviço chama-se Esteves. Claro que, a partir da sala secreta, abre-se um mundo novo, de ideias, em que quase tudo é possível, e que, por regra, não se mistura com o mundo “normal”. Ora, é nessa sala que aparece o nosso Saramago. Porque alguém pensou nele na livraria contígua à farmácia», p. 13.

Como se vê, o leitor entra num mundo de fantasia. “S”, ou “Esse”, a ideia de Saramago, recebe uma missão do próprio Dom Quixote e embarca numa odisseia, conhecendo e convivendo com vários escritores, por exemplo, Alexandre O’Neill, Padre António Vieira (advogado de Esse, que o defenderá de acusações gravíssimas), Eça de Queirós, Mankell, Virgina Woolf, mas também com filósofos, como Confúcio e Voltaire, com artistas como Riefenstahl, ou mesmo com personagens de romances, como Dulcineia, Lídia e Marcenda (esta últimas, do romance O Ano da Morte de Ricardo Reis). Esse visita igualmente locais famosos, como a Closerie de Lilas, café parisiense, onde se encontraram gerações de artistas, escritores, músicos e políticos. Também Pilar não podia faltar nesta obra, sendo-nos apresentada com mais pormenor do que as outras personagens e, mesmo não participando na odisseia, mantém-se omnipresente em todo o romance.  

 Há, por isso, razões de sobra para ler este livro. O único senão poderá ser a quantidade de artistas e obras citadas, ou referenciadas e que se misturam no enredo. Não tendo conhecimento de determinado escritor, obra, ou artista, o leitor poderá ter dificuldade em entender a leitura, como aliás me aconteceu, em certos passos. Embora haja, no início, uma “Tábua de Personagens e Lugares”, torna-se fastidioso folhear para trás e para a frente, à procura de informações que nos possam ajudar a entender todos os momentos do enredo.


10 de julho de 2020

Um caco contador de histórias

O Jornal Católico do bispado alemão de Hildesheim tem, na sua última página, uma pequena secção reservada aos leitores intitulada “Isto é-me sagrado” (em alemão: Das ist mir heilig). O leitor envia uma fotografia de um objeto, ou de uma imagem, que lhe seja sagrado/a e explica a razão. Em muitos casos, trata-se de idosos que, em crianças ou jovens, se viram envolvidos no êxodo dos refugiados alemães. Antes da 2ª Guerra Mundial, a Alemanha possuía territórios no Leste: a Prússia Ocidental e Oriental, hoje pertencentes à Polónia e à Rússia. Nos últimos meses do conflito, com o avanço do exército soviético, os alemães que aí viviam, pelo menos, os que sobreviveram aos soldados russos, tiveram de fugir, deixando todos os seus bens para trás. Tratava-se quase exclusivamente de mulheres, velhos e menores de dezasseis anos, já que praticamente todos os homens em idade militar tinham sido alistados. Assim se juntaram milhares de refugiados, obrigados a marchas desgastantes de milhares de quilómetros, no inverno rigoroso de 1945. Escusado será dizer que muitos não sobreviveram e havia menores a viajar sozinhos, não só órfãos, também alguns se viam separados das mães e avós, na confusão que se gerou. Sobreviventes dessa época aproveitam esta oportunidade que o jornal lhes dá para falarem de pequenos crucifixos, ou figuras de santos, que acreditam tê-los ajudado nesses tempos difíceis.

Na semana passada, porém, surgiu algo diferente. Gostei de um leitor de Berlim que mostrou uma relíquia oferecida por um monge budista. E gostei mais ainda de verificar que o jornal católico não teve problema nenhum em publicar o pequeno texto. A história vale a pena e mostra que, salvaguardando as diferenças, todos ganhamos ao aceitarmos lições de outras confissões religiosas. Em vez de nos concentrarmos no que nos separa, é bem melhor aproveitar o que nos une. Aqui vai o que Holger Doetsch, de Berlim, escreveu (tradução minha):


Caco do Camboja.jpg

«Em 2013, fundei, com amigos, uma instituição de apoio a crianças, no Camboja. Numa das minhas visitas, descobri um mosteiro no meio de um bosque, a oito quilómetros de Siem Reap. Apenas quatro monges budistas lá viviam. Um deles levou-me a um salão, cujo interior tinha sido destruído pelo fogo. Explicou-me, então, que, em 1977, mais de quarenta monges tinham sido ali queimados vivos pelo Khmer Vermelho. Em seguida, abaixou-se, apanhou este caco do chão e deu-mo, dizendo: “Sempre que se apanhe a queixar-se disto ou daquilo, olhe para este caco. Verá como os seus problemas se relativizam”».


Texto originalmente publicado aqui.



7 de julho de 2020

Seguras ou não seguras?



Sinceramente, acho as palavras deste industrial um exagero. O artigo, com grande destaque na página principal do Sapo, na manhã do passado dia 2, cheira muito a publicidade.

Temos de ter em mente que o uso de máscaras não anula o chamado distanciamento social de, pelo menos, 1,5m. Respeitando-o, as máscaras com 70% de filtragem cumprem perfeitamente o seu objectivo: evitar a circulação livre do ar entre as pessoas, ao respirar. Ninguém precisa de máscaras cirúrgicas, com mais de 90% de eficácia, no dia-a-dia (a não ser talvez, em certos transportes públicos). Na Alemanha, até se aceitam simples lenços a cobrir a boca e o nariz nos supermercados e comboios e a pandemia, neste país, está bastante controlada (o maior problema continuam a ser os matadouros).

Apesar de reconhecer que as autoridades portuguesas cometeram erros desnecessários (e, para isso, baseio-me largamente nos textos aqui publicados pelos meus colegas de blogue), declarar que elas  “facilitaram” ao admitirem modelos que oferecem apenas 70% de filtragem é, na minha opinião, de um grande atrevimento.


Nota: texto originalmente publicado aqui.

4 de julho de 2020

Contentor cheio, pratos vazios



Os contentores deste título, que traduzi diretamente do alemão, são os do lixo, ou seja, aponta para o contraste do nosso mundo atual: contentores de lixo a abarrotar de comida ainda em condições de ser consumida ao lado de gente a passar fome. E, no entanto, o livro não compara a situação da Europa com a do chamado Terceiro Mundo. Este livro limita-se à Alemanha!

No país considerado o mais rico da Europa, há uma instituição chamada Tafel que tenta recuperar o mais possível do que os supermercados tencionam deitar fora, a fim de o distribuir por pessoas que vivem em condições precárias (normalmente, as pessoas pagam um preço simbólico pelos alimentos, mas, em casos que se justifiquem, eles são gratuitos). Com 940 lojas espalhadas pelo país, a Tafel ajuda a sustentar milhão e meio de pessoas, trabalho só possível com o apoio de 60.000 voluntários!

Com tudo isto, a Tafel contribui ainda para a preservação do ambiente. Na Alemanha, cerca de 18 milhões de toneladas de alimentos aterram anualmente no lixo. Através de parcerias com supermercados, padarias, mercados grossistas e alguns produtores, esta instituição consegue, ainda assim, recuperar quase 300.000 toneladas de alimentos.

E, no entanto, é criticada. Por um lado, a quantidade de mercadoria resgatada é irrisória, em relação à efetivamente desperdiçada. Por outro, a Tafel é acusada de exercer uma função que compete ao Estado, ou seja, está a tirar-lhe responsabilidades. Por isso mesmo, o seu responsável, Jochen Brühl, publicou este livro. Ele diz que gostaria de salvar muitos mais alimentos, mas que as suas possibilidades estão limitadas. E sugere aos críticos da Tafel que encontrem maneiras de contribuir para que se desperdice menos. Em relação a fazer um trabalho que competiria ao Estado, ele contrapõe que a Tafel não pode pura e simplesmente virar as costas às famílias que dela dependem para sobreviver.

Neste livro, Jochen Brühl reúne uma série de entrevistas que fez tanto a críticos, como a apoiantes, ou mesmo a beneficiários da instituição. Pelo meio, vai dando sugestões de como se pode diminuir a quantidade de lixo e lutar contra o consumismo. Por exemplo: porque têm as frutas e os legumes de apresentar formas perfeitas no supermercado? Será mesmo necessário termos pão fresco a qualquer hora do dia? Porque deitamos alimentos fora, mal tenha passado a data de validade, sem verificarmos se já estão realmente impróprios para consumo? Na verdade, há produtos que nunca perdem a validade, como mel, ou farinha (ou outros em pó, como misturas para pudins); o arroz e as massas são comestíveis muito para além do seu prazo e mesmo iogurtes se podem comer fora da validade, se não tiverem cheiro desagradável, sinais de bolor e a consistência ainda for normal (eu própria já comi muitos iogurtes fora da validade). Jochen Brühl apela ainda para que tenhamos mais cuidado a cozinhar, medido bem as quantidades. Enfim, todos nós poderíamos contribuir para diminuir o consumismo, criando uma sociedade mais justa e preservando o ambiente.

De entre os entrevistados, saliento Marianne Birthler, uma política da Alemanha de Leste que esteve envolvida nas manifestações que fizeram cair o Muro de Berlim. Depois da reunificação, foi ministra da Educação, da Juventude e do Desporto no Land Brandenburg e, entre 2000 e 2011, encarregada, pelo governo federal, de analisar a documentação da STASI, a polícia política da antiga RDA. Resolvi traduzir uma passagem da sua entrevista que me agradou especialmente:

«Tenho esperança num mundo melhor! Que mais me resta, senão essa esperança? Caso contrário, bem poderíamos desistir de viver. Mas esperança não significa que aquilo que desejo se realize. Isto é um grande mal-entendido. A esperança e as utopias são apenas fontes de energia. Elas não existem para se transformarem em realidade, tal como idealizamos, mas para nos motivarem a agir. As pessoas sofrem muitas desilusões, porque pensam que aquilo com que sonham tem de se concretizar. Isto é um disparate. Não é para isso que existem os sonhos. Os sonhos são o empurrão para que dêmos o pontapé de saída».

 

Informação adicional: há cerca de 650.000 pessoas na Alemanha sem habitação; cerca de metade são refugiados, ou pessoas à espera da resposta ao seu pedido de asilo, e vivem em abrigos próprios; contudo, e apesar de haver albergues para sem-abrigo, calcula-se que cerca de 48.000 vivam “debaixo da ponte”. Sim, existe muita pobreza no país considerado o mais rico da Europa.


21 de junho de 2020

Covid-19 nos matadouros alemães

O mundo atual pode ser caracterizado, entre outras coisas, pelo consumo desenfreado de carne. Nunca se comeu tanta carne como hoje em dia. Dir-me-ão que é bom praticamente toda a gente ter acesso ao seu bife e ao seu assado, já que a carne se tornou barata.

Por acaso, não é bom. Relacionamos o problema da fome com a falta de carne, mas, na verdade, pode-se viver muito bem, e até mais saudável, com pouca carne. Tenham calma, não comecem já a limpar e a carregar as armas! Não sou extremista, não acho que nos devíamos tornar todos vegetarianos, apenas que devíamos consumir menos carne. Esta tornou-se tão barata, que perdeu o seu valor, deita-se fora como se de cascas de batatas se tratasse. Um terço da carne produzida industrialmente vai para o lixo. Se prescindíssemos de um outro terço, ninguém morria de fome, talvez até fôssemos mais saudáveis, deitando por terra o argumento de que é forçoso manter este tipo de indústria, a fim de alimentar a população mundial.

Dizer que a produção industrial de carne dá cabo do planeta e da nossa saúde não é uma invenção. Claro que não estou apenas a falar do gás metano. Todos sabemos, por exemplo, que as gigantescas plantações de soja são um desastre ecológico. Ao contrário do que se diz (normalmente, os consumidores de grandes doses de carne), a responsabilidade não é dos vegetarianos e dos vegans. 70% a 80% da soja produzida serve de ração para animais que engordam e vegetam em espaços minúsculos, que se mutilam uns aos outros por puro stress e que não fazem ideia do que é a luz do sol.

Mas estou a fugir ao tema. Não queria falar de animais e, sim, de pessoas. Humanos que adoecem de Covid-19 por causa das suas condições de habitação e de trabalho nos matadouros alemães. Muitos desses trabalhadores são oriundos da Europa de Leste, recebem ordenados míseros e vivem em condições de pouca higiene, quase tão apertados como os animais que esventram e esquartejam todos os dias. Isto tudo, para que a carne chegue barata aos supermercados, coisa que em nada contribui para diminuir a fome no mundo, nem sequer para melhorar a qualidade de vida seja de quem for.

A Alemanha está a enfrentar um sério problema de Coronavírus nos seus matadouros. Depois dos primeiros indícios, a coisa está a descontrolar-se, precisamente, na altura em que se tenta recuperar alguma normalidade. Ontem foram testados mais de 600 casos positivos num matadouro de Gütersloh, uma cidade de quase 100.000 habitantes, bem no centro da Alemanha. As restrições regressaram ao concelho: tornaram a fechar-se todas as escolas e creches e há 7.000 pessoas em quarentena. Hoje, nova bomba: num matadouro da Baviera (pertencente à mesma empresa), foram, até agora, detetados 110 casos.

Quando, há algumas semanas, começaram a surgir os primeiros problemas, houve uma tentativa de início de uma discussão sobre as condições de trabalho desta gente e o nosso consumo de carne (admita-se, ou não, há uma ligação entre os dois assuntos). Essa discussão, porém, logo desapareceu, tão poderoso é o lobby da carne, um negócio de milhões, construído sobre a falta de respeito pela vida no nosso planeta. Agora, não deve haver modo de fugir a essa discussão.

É triste que tenham de surgir desgraças, a fim de que certos temas sejam finalmente abordados. Temos de desenvolver uma nova cultura da alimentação, começando pelas crianças, uma cultura que nos leve a dar mais valor ao que temos no prato. Um bife, ou uma febra, não é a mesma coisa que um pedaço de cartão. Um animal teve de viver em condições indignas, de sofrimento permanente, a fim de ser morto e esquartejado por pessoas a trabalhar e a viver em condições sub-humanas (para não falar nos estragos ambientais). E eu pergunto: na tentativa de modificar este estado de coisas, não seremos capazes de prescindir de carne todos os dias, de comer um bife de 200g em vez de 400g, ou de acabar com orgias de carnes em churrascos? Serão estes sacrifícios assim tão gigantescos, se pensarmos no que está em causa?

Para mim, não. Há muito que reduzi o meu consumo de carne para menos de metade (e assim se relativiza o seu preço). Podem dizer-me que não adianta nada, que sou uma sonhadora. Eu respondo com John Lennon:

You may say I’m a dreamer

But I’m not the only one

 Quantos mais formos, mais podemos modificar.

 

Nota: os artigos citados são em alemão, a tradução é de minha autoria. Texto originalmente publicado aqui.

12 de maio de 2020

Música proibida

Diz-se que a música pode ser uma arma. Para mim, que, junto com o meu marido Horst, canto no coro gospel Lightfire, a música é, acima de tudo, alegria e partilha. Além disso, a música é uma “língua” internacional, que pode unir pessoas de proveniências díspares, seja através da participação numa orquestra, seja através da dança, ou do canto.

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O nosso coro Lightfire. O Horst é o segundo homem, a contar da direita; eu estou mais ou menos a meio, na frente, com um lenço vermelho ao pescoço. A nossa indumentária é livre, desde que se resuma às cores vermelho e preto.


Cantar faz feliz. Já todos constatámos que, muitas vezes, basta murmurar uma melodia para esquecer tristezas. Estudos têm igualmente provado que cantar ajuda a libertar o stress, baixando o ritmo cardíaco e a tensão arterial e fortificando o sistema imunitário.

Cantar num coro traz outras vantagens: ensina-nos disciplina, paciência e respeito pelo outro. Ensaiar uma canção a quatro vozes só é possível, tendo em conta estes três fatores. Implica muito trabalho, mas o resultado final é sempre compensador. Depois dos ensaios, vou a murmurar, ou mesmo a cantar, as melodias ensaiadas, enquanto pedalo na minha bicicleta, de regresso a casa.

Infelizmente, cantar tornou-se uma atividade de alto risco. Claro que há a possibilidade de cantarmos  sozinhos, em casa. Até podemos fazer vídeos e mostrá-los na internet (no caso de sermos bons solistas, claro, muitos artistas têm optado por esse meio). Mas cantar num coro, ou tocar numa orquestra, principalmente tratando-se de instrumentos de sopro, tornou-se numa atividade perigosa e proibida.

Ao cantar, expulsamos o ar a grande velocidade e respiramos de maneira diferente. Antes dos ensaios, além de treinos de voz, fazemos muitos exercícios de respiração, pois torna-se frequente o inspirar fundo, o que, em tempos de Covid-19, é especialmente perigoso, já que o vírus pode assim entrar profundamente nos pulmões. Também os aerossóis são um problema, os especialistas dizem que as gotículas microscópicas de saliva que expiramos mantêm-se bastante tempo suspensas no ar.

Tudo isto anula o efeito benéfico do cantar na nossa saúde; cantar tornou-se tão perigoso como tossir, espirrar e rir, mesmo respeitando distâncias de segurança. Prevê-se que fazê-lo em conjunto e/ou em público se manterá proibido durante muito tempo, o que não afeta apenas quem a isso se dedica, seja em forma de hobby, seja a nível profissional. Também o cantar na igreja continuará tabu, mesmo que se comecem a celebrar missas sob condições especiais.

A nossa tristeza é imensa; para cantores e músicos profissionais pode mesmo significar a pobreza. Restam-nos as recordações e a esperança de que a situação, algum dia, mude. Enquanto isso não acontece, permitam-me deixar-vos com uma atuação nossa, gravada em áudio no outono de 2017, na igreja luterana dos Santos Cosme e Damião, em Stade, a qual aproveitei para fazer um vídeo ao estilo de “slide-show”. Trata-se da canção Look at the World, de John Rutter, e é acompanhada apenas ao piano.


Nota: texto originalmente publicado aqui.


7 de maio de 2020

O Perfume da Savana



Este romance começa bem. Somos introduzidos em Angola, ao tempo do colonialismo, num retrato de época, em que não faltam alguns segredos da savana e da vida dos animais selvagens, que, afinal, não são tão perigosos como muita gente julga, pelo menos, para quem conhece o seu carácter e os seus hábitos.

Neste cenário, dois jovens envolvem-se num amor proibido. A partir daqui, o romance perde em qualidade, pois, na minha opinião, esse amor não é bem gerido. Apesar de se tratar de uma relação intensa, cai numa série de lugares comuns. Os diálogos, por exemplo, são muito repetitivos. Insistir centenas de vezes no tratamento “meu amor, minha vida” enfastia o leitor. Depois de ficar claro que duas pessoas se amam intensamente, não há necessidade de, a propósito de tudo ou de nada, bater na mesma tecla. Também hesitações do género: “achas, é? Pois, se calhar… não sei, mas, se o dizes… deves ter razão, sim”, se devem evitar. Apesar de espelharem uma linguagem quotidiana, quebram o ritmo, o leitor começa a bocejar, quando não fica exasperado…

Outro aspeto negligenciado é a caracterização das personagens. Falta densidade ao marido traído. O romance ganharia em qualidade se transmitisse igualmente a sua perspetiva. Quanto aos jovens apaixonados, é natural que se achem acima da lei e da moral, dada a intensidade dos seus sentimentos, mas, também em casos destes, há momentos em que se sente culpa, ou peso de consciência, principalmente, quando se enganam ou manipulam pessoas que em nós confiam… ou não?

Resumindo: retrato de uma época, assente num enredo empolgante - um romance que tinha tudo para se tornar num grande livro, se tivesse chegado às mãos de um editor que reconhecesse o seu potencial e dado as indicações necessárias ao autor. Editores desses, porém, são mais raros, em Portugal, do que bons escritores. Enfim, é pena ver ideias destas desperdiçadas. Uma possibilidade seria criar um guião. Nas mãos certas, podia ainda dar um excelente filme.



2 de maio de 2020

Último reduto

Em mais um dos meus passeios solitários, dei com uma inscrição a giz, no passeio. Uma passagem da Bíblia, mais propriamente, do Evangelho segundo São Mateus.

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Traduzido à letra: “Vinde a Mim, quando tudo se torna pesado (ou difícil) demais”.

Fui procurar a versão portuguesa, pois todos sabemos como são problemáticas as traduções da Bíblia. Tive inesperada dificuldade em encontrar a passagem, só com a ajuda da internet lá fui, devido a um pequeno erro na inscrição. Não se trata de Mt 11,18, mas de Mt 11,28. E, como tenho duas Bíblias portuguesas, deparei com duas versões diferentes (uma da Difusora Bíblica, na sua 15ª edição, de 1991; outra intitulada “a Bíblia para todos”, tradução interconfessional, publicada entre nós pela Sociedade Bíblica de Portugal, numa edição de 2009):

“Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e aliviar-vos-ei”.

“Venham ter comigo todos os que andam cansados e oprimidos e eu vos darei descanso”.

No fundo, estas diferenças não são relevantes. O importante é aquelas palavras me terem feito parar, olhar para elas durante momentos, fotografá-las. Quando me resolvi a continuar, não imaginava que depararia com mais duas citações bíblicas (a qualidade das fotografias não é boa, as condições sol/sombra não facilitaram). Desta vez, vou usar apenas a tradução da publicação mais recente. Da primeira Epístola de São Pedro:

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“Confiem-Lhe todos os vossos problemas, porque Ele se preocupa convosco.”

1 Pe 5,7

E a passagem bem conhecida do Salmo 23 (que até estava ilustrada):

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“O Senhor é meu pastor, nada me falta”.

Deus é o nosso último reduto. Perante situações que nos ultrapassam, é a Ele que apelamos. E a verdade é que regressei a casa mais calma, com menos receio de que não ultrapassássemos esta crise. Como se tivesse encontrado pelo caminho alguém que me garantisse que Deus está connosco.

Deus não é uma máquina de resolver problemas, nem é o génio saído da garrafa que nos satisfaz desejos. Ele apenas nos ampara, nos dá força. Em vez de pedirmos a Deus que nos tire os obstáculos da frente, devemos pedir-lhe força para lidar com eles. E, quando as adversidades nos ultrapassam, ajuda pensar que a solução talvez não esteja nas nossas mãos. "Eu dou o meu melhor, o resto é com Deus" - por vezes, basta este pensamento para nos sentirmos mais aliviados e corajosos.


Texto originalmente publicado aqui.



25 de abril de 2020

Danos colaterais

Todos sabemos que esta pandemia, como todas as catástrofes, é pródiga em danos colaterais. Não os causa só na economia, como na psique de cada um, separando famílias, proibindo os contactos sociais e constituindo um verdadeiro desafio à paciência dos agregados familiares que se veem confinados às suas quatro paredes (os efeitos nas crianças e nos jovens podem ser ainda mais marcantes do que nos adultos).

Zangas e discussões estão programadas, mesmo em famílias que se dão bem. Infelizmente, sabemos que a vida familiar está longe de ser agradável para todos, mesmo em tempos de normalidade. Não faltam casos de violência, cuja esmagadora maioria das vítimas são mulheres e crianças. Se a vida destas costuma já ser um inferno, piora, nestes tempos, não só por uma existência mais escondida, como também pela falta de momentos em que podem espairecer: na escola, no trabalho, ou mesmo em casa, enquanto o/a agressor/a está ausente. É difícil de calcular o martírio por que estão a passar muitas destas vítimas. E não esqueçamos a negligência sofrida por muitas crianças, também uma forma de violência. Quando os pais não encontram paciência para, ou se acham incapazes de, cuidar dos filhos (e não estou a falar apenas de lhes dar atenção, mas de cumprir as regras básicas de higiene, ou de alimentação, por exemplo), a mensagem (implícita) que lhes dão é: “tu não mereces que se trate de ti”, ou “tu não vales o suficiente para que alguém se preocupe contigo”. É isto que a criança interioriza e não é preciso ser psicólogo para se calcular que deixa mazelas para toda a vida.

Como se tudo isto não bastasse, também os serviços sociais se veem obrigados a cancelar muito dos seus procedimentos, ou seja, a ajuda, quando existe, diminui, ou desaparece mesmo. Foi isso que constatei numa entrevista ao Director da CARITAS no bispado alemão de Hildesheim, o psicólogo John Coughlan, que pode bem servir de referência, já que calculo que a situação seja semelhante em todo o mundo.

De facto, a ajuda e o apoio psicológico, que a CARITAS presta a crianças, jovens e famílias, estão muito limitados. Se há casos em que contactos telefónicos, por email, ou por um determinado serviço Messenger podem remediar, noutros, a situação é mais complicada. Havendo crianças em perigo, por exemplo, seja por violência, seja por negligência, as visitas ao domicílio são essenciais para que os assistentes sociais e psicólogos se inteirem da situação e possam atuar. Também o contacto telefónico pode impedir que a pessoa que pede ajuda se exprima à vontade, seja por medo de ser escutada por alguém que esteja em casa, seja por ter dificuldade em falar dos seus problemas. Num contacto pessoal, os profissionais estão mais em condições de decifrar sentimentos silenciados e de interpretar gestos e expressão corporal que possam revelar algo que a vítima esteja a esconder.

Não só a mortandade causada pelo vírus é assustadora. Todos nós tememos as consequências destes tempos estranhos. A bem da nossa saúde mental, é imprescindível manter a esperança e viver o mais normal possível.

John Coughlan deixa sugestões. O mais importante é criar uma estrutura no dia-a-dia, principalmente, com crianças, pois a disciplina ajuda a dar sentido à vida. Os pais não devem descurar as horas certas de se levantarem ou de irem para a cama. Devem também ser estabelecidas horas, ou alturas do dia, para tarefas como trabalhos escolares. As horas das refeições devem igualmente ser cumpridas e, melhor ainda, introduzir as crianças na sua preparação (sem grande severidade e com paciência para erros e desatenções). Tudo o que se faz em conjunto reforça os laços e ajuda a superar crises. Deve, no entanto, haver igualmente uma altura do dia que possibilite a cada um, se o desejar, recolher-se e ocupar-se unicamente dos seus próprios interesses.

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Fotografia de Pedro Correia.


Nota: Texto originalmente publicado aqui.