Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

26 março 2011

Batalha de Ourique V - A Vitória

Com os almorávidas desgastados e assustados com o poder de Ibn Errik (assim denominavam Afonso Henriques), o comandante Ibn 'Umar só viu uma possibilidade de dar a volta à situação: acabar com o próprio rei português.


Mas Ibn’Umar reagiu! Começou a juntar cavaleiros à sua volta, com um único intuito: acabar com o próprio Ibn Errik. O comandante almorávida, que não acreditava em “golpes de magia”, cedo notou que o soberano era a fonte da força dos seus homens. Aniquilando Ibn Errik, o exército português soçobraria!
Com a cota de malha cheia de sangue dos adversários, Afonso manejava a sua espada como se o cansaço lhe fosse um fenómeno desconhecido. Nesta febre de matança, não se apercebeu das movimentações de Ibn’Umar. E o almorávida aproximou-se perigosamente dele.
Ao ouvir berros, Afonso viu três cavaleiros, entre eles Mendo Moniz, passarem a seu lado a grande velocidade, de espada no ar e gritando como possessos, precipitando-se sobre o grupo dos sarracenos. Logo atrás vinham Lourenço, o Sousão e o Braganção com mais quatro. Mas, para os três primeiros, esta ajuda chegou tarde demais, Afonso viu Mendo Moniz agonizando em cima da sua montada, com uma flecha espetada na barriga. Não tardou a cair por terra.
No rosto do irmão Egas Moniz desenhava-se o desgosto e o horror e o recém-aclamado rei reagiu impulsivo. Depois de murmurar: “Não me abandoneis, meu pai”, avançou, de espada em punho, ao encontro de Ibn’Umar. Porém, o Espadeiro atravessou-se-lhe no caminho, berrando:
- Quereis que os portugueses percam o seu rei, no próprio dia em que o aclamaram? Mantende-vos ao lado de meu pai, que não está mais em condições de combater! Eu tudo farei para vos proteger aos dois.
Com a ajuda do meio-irmão Soeiro e do Sousão, o Espadeiro organizou uma nova guarda de cavaleiros à volta de Afonso e Egas Moniz e conseguiu afastá-los do perigo. Faltava Fernando Mendes, o Braganção, que Afonso já não via em lado nenhum. Em vez disso, viu a fúria nos olhos de Ibn’Umar, antes de este abandonar o campo de batalha, ao notar que não tinha hipóteses de aniquilar Ibn Errik com as próprias mãos.


Batalha de Ourique


 O exército português tinha sofrido muitas baixas e o cerco montado à volta dos almorávidas apresentava muitas brechas. Mas a batalha estava ganha. Os mouros sobreviventes batiam em retirada, tentando salvar a pele. Logo se iniciaram as perseguições e o saque do acampamento inimigo. Ibn’Umar, porém, logrou escapar à ferocidade dos guerreiros portugueses.

Fizeram-se ao caminho de regresso, atravessaram o Tejo, passaram em Leiria. E, em todo o lado, contavam como tinham ganho a batalha de Ourique, a 25 de Julho daquele ano de 1139, contra um exército três vezes maior do que o deles, comandado por cinco reis mouros.
Afonso fez uma entrada triunfal em Coimbra, não havia memória de tantas riquezas e tantos mouros cativos juntos. Davam-se vivas a el-rei de Portugal e dizia-se que Jesus Cristo lhe aparecera na noite anterior à batalha, a fim de lhe prometer a vitória e dotar os portugueses de força divina.
           O reencontro com a sua amada Châmoa Gomes não foi a única alegria que Afonso sentiu ao chegar à alcáçova. Deparou com D. João Peculiar, acabado de regressar de Roma, onde assistira ao Concílio de Latrão, presidido por Inocêncio II. O novo arcebispo de Braga, além de ter aprofundado as suas relações com o cardeal Guido de Vico e o cisterciense Bernardo de Claraval, recebera, das mãos do Papa, o pálio: a insígnia da sua dignidade arquiepiscopal.


Cinco escudetes dispostos em forma de cruz


 Depois da aclamação em Ourique, Afonso Henriques não mais deixou de usar o título de rei. Estava aberto o caminho para o reconhecimento oficial do reino, para o qual, aliás, D. João Peculiar, o arcebispo de Braga, muito contribuiu. O Prof. José Mattoso diz-nos mesmo que Afonso Henriques não teria conseguido alcançar os seus objectivos sem a preciosa ajuda desse prelado. Se Afonso Henriques representava a demonstração de poder e força, D. João Peculiar era a astúcia em pessoa e um excelente diplomata.
 

2 comentários:

Anónimo disse...

Este país parece que precisa de novo do rei D. Afonso Henriques e de um D. João Peculiar.

antonio - o implume disse...

Longe vão esse actos, no tempo, nas nossas almas e na nossa coragem.