Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

31 agosto 2016

Tu és a Única Pessoa (1)


           - Para onde vais?
Lena encarou-o e respondeu, na sua candura de criança:
- Não sei.
Duas pequenas palavras, que se repetem várias vezes ao dia, pelos motivos mais prosaicos, e que, naquele momento, fizeram-no engolir em seco. Leonel não conseguia imaginar algo mais triste do que não ter para onde ir.




O livro pode, para já, ser encomendado na Portugal Post Shop, por 11,90 € + portes.
 

A partir de meados de Setembro, estará disponível nas livrarias.

29 agosto 2016

Dom Dinis e Dona Isabel

Fonte da Imagem

Dom Dinis compôs Cantigas de Amor e de Amigo apenas para as suas amantes, ou também o fez para a sua rainha Dona Isabel? No meu romance, sim, embora a relação entre os dois tenha sido difícil:

Anunciou entoar uma cantiga que compusera para ela. Isabel encarou-o resplandecente.
Dinis não possuía grande voz, mas, devido ao seu bom ouvido musical, não desafinava. Ao som dos alaúdes, cantou sobre a senhor que lhe pedira que nunca lhe dissesse o quanto ele a amava, nem quanto por isso sofria (numa alusão à espera que o angustiava e desesperava). E questionava-a: mas, se não vos disser a vós, senhor, a quem poderei eu contar tal? Se não vos disser o que por vós sofro, por quem ireis sabê-lo?

                        Vós mi defendestes, senhor,
                        que nunca vos dissesse rem
                        de quanto mal mi por vós vem;
                        mais fazede-me sabedor,
                        por Deus, senhor, a quem direi
                        quam muito mal levei
                        por vós, se nom a vós, senhor?

                        Ou a quem direi o meu mal,
                        se o eu a vós nom disser,
                        pois calar-me nom m’é mester
                        e dizer-vo-lo nom m’ er val?
                        E pois tanto mal sofr’ assi
                        se convosco nom falar i
                        por quem saberedes meu mal?

Quando a música cessou, em vez de aplaudir ou elogiar, Isabel ficou fixa nele. Os olhos negros brilhavam intensamente. Gerou-se silêncio, só se ouvia o crepitar do lume… Até que lobos uivaram na serra.

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O meu romance sobre Dom Dinis está à venda sob a forma de ebook na LeYa Online, na Wook e na Kobo.

Para adquirir a versão em papel, contacte-me através do email andancas@t-online.de.

Nota: Todas as Cantigas de Amor, de Amigo e de Escárnio transcritas no meu romance são originais de Dom Dinis, embora seja fictício o contexto em que são inseridas.

27 agosto 2016

O Meças




É-me difícil falar deste livro, assim como foi lê-lo. Gostei da sinceridade, do despojamento, da objetividade; incomodou-me a crueldade humana. O Meças põe a nu a desumanidade, sem precisar de cenas sanguinárias nem de holocaustos. Fala de gente que sofreu crueldades na infância e que, ao contrário do que muitos pensam, não as comete para se vingar, mas sim porque não aprendeu de outra maneira, ou porque as circunstâncias da vida não lhe mostraram alternativas.

A crueldade psicológica que cria medo nas vítimas, que as põe sob pressão, que finalmente as deixa apáticas, conformadas, deixa o leitor claustrofóbico, perguntando-se que drama esconderá a casa do próprio vizinho, ou refletindo nos seus próprios dramas. Este é um livro claustrofóbico, sentimo-nos presos como uma das personagens, sensação acentuada pela escrita de Rentes de Carvalho: seca, despojada, um tiro certeiro a cada bala.

O Meças aborda igualmente o tema da emigração, tão bem conhecido do autor, ele próprio emigrante há muitas décadas, o que também me tocou, pois me reconheci nalgumas passagens reflexivas que surgem já depois do final do romance:

«O emigrante perde sempre (…) no regresso não vai encontrar entusiasmo nem boas-vindas (…) não vai faltar quem lhe aponte erros e diferenças (…) De nada lhe servirá esforçar-se, dar prova de que pertence: o ninho rejeita-o. Mas a ninguém dará conta da sua tristeza e desespero: afivela a máscara do sorriso, finge boa vontade, cegueira, entra no coro, diz que sim, realmente: cá é que é, cá é que temos o solzinho, as praias, a boa comida» (p. 172).

Há dois narradores: um que nos conta a história do Meças na terceira pessoa e outro que fala na primeira, a fim de nos contar a sua vida e que talvez tenha algo de autobiográfico, já que nos dá conta da sua relação ambígua com Trás-os-Montes, a terra de origem da família do autor. Vem-se a descobrir que as duas personagens estão ligadas por parentesco, encerrando um segredo familiar.

«Há tragédias que obrigam a cortar de vez, há gente a quem só pertencemos pelo sangue, dão-se nas famílias casos terríveis, vergonhas, horrores que nada limpa» (p. 148).

Não é uma leitura que nos ponha bem-dispostos, mas ficam bem servidos aqueles que se interessam pelas facetas obscuras do comportamento humano.


25 agosto 2016

Cantigas de Escárnio de Dom Dinis

Foto © Horst Neumann

Dom Dinis é conhecido pelas suas Cantigas de Amigo e de Amor, mas o Rei Poeta também criou Cantigas de Escárnio.
A esse propósito, um excerto do meu romance:

                                   Joam Bolo jouv’ em ũa pousada
                                   bem dês ogano que da era passou
                                   com medo do meirinho que lh’ achou
                                   ũa mua que tragia negada;
                                   pero diz el que, se lhi for mester,
                                   que provará ante qual juiz quer
                                   que a trouxe sempre dês que foi nada.

            Os nobres encetavam novos protestos contra os resultados das inquirições e Dinis, usando a personagem João Bolo, escarnecia dos fidalgos de província que desobedeciam aos meirinhos régios, usando de todos os subterfúgios para se furtarem às suas obrigações. Dizia o rei na sua cantiga que João Bolo vivia há um ano escondido, com medo de um meirinho que lhe descobrira uma mula roubada. O fidalgote contrapunha que, arranjando bom advogado, provaria perante qualquer juiz que a mula lhe pertencia, pois tinha testemunhas em como a criara desde que nascera, em casa de sua mãe. A melhor testemunha, dizia ele, era mestre Reinel, que tratara de um inchaço que a mula tivera no toutiço:

                                   Nom na perderá, se houver bom vogado,
                                   pois el pode per enquisas põer
                                   como lha virom criar e trager
                                   en cas sa madr’, u foi el criado;
                                   e provará per maestre Reinel
                                   que lha gardou bem dez meses daquel
                                   cerro, ou bem doze, que trag’ inchado.

            Dinis não tinha mais paciência para os infindáveis protestos, apesar de Isabel insistir em que não os subestimasse.

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O meu romance sobre Dom Dinis está à venda sob a forma de ebook na LeYa Online, na Wook e na Kobo.

Para adquirir a versão em papel, contacte-me através do email andancas@t-online.de.

Nota: Todas as Cantigas de Amor, de Amigo e de Escárnio transcritas no meu romance são originais de Dom Dinis, embora seja fictício o contexto em que são inseridas. 


23 agosto 2016

Sentença Arbitral de Torrellas (3)

Verificando-se, este mês, o 712º aniversário da Sentença Arbitral de Torrellas, na sequência de um longo processo, no qual Dom Dinis foi o medianeiro principal, aproveito para transcrever um excerto do meu romance alusivo a esta efeméride:

Portugueses e aragoneses confraternizaram num banquete. A rainha Branca de Aragão espantou a corte de Isabel com a última novidade vinda de Veneza: um espelho de vidro! As damas pasmavam com a clareza da imagem, acostumadas às folhas de prata polida, ou ao simples reflexo projetado na água. Algumas assustavam-se ao ver-se tão nítidas, descobrindo rugas e defeitos cutâneos e concluindo não apreciarem tais novidades.
A única que não se surpreendeu com a sua imagem foi Isabel, como se a conhecesse desde sempre. De resto, preferia prosear com dois famosos estudiosos aragoneses.
Arnaldo Vilanova, filósofo e alquimista, ligado ao movimento dos espirituais franciscanos, era médico oficial da corte desde o tempo de Pedro III e assumia missões diplomáticas ao serviço de Jaime II.
Raimundo Lulo, um franciscano catalão, igualmente ligado à alquimia, expressava pensamentos que a maior parte dos seus contemporâneos não entendia. Dizia ele, por exemplo, que seria possível alcançar a Índia circum-navegando a África, evitando o Mar Mediterrâneo, a rota comercial dominada pelos sarracenos. E ia mais longe! Numa das suas obras, escrevera: A terra é esférica e o mar também é esférico (…) é necessária uma terra oposta às praias inglesas: existe, pois, um continente que não conhecemos.
A existência de um continente desconhecido assustava e chocava, pois nada disso era mencionado nos mapas da época, que apresentavam Jerusalém como o centro da Terra e o mar como o fim do mundo. Outras almas mais iluminadas, porém, como as da rainha portuguesa e do Mestre dos Templários Frei Vasco Fernandes, fascinavam-se. Os cavaleiros do Templo estavam familiarizados com ideias avançadas e mal compreendidas, eram conhecedores de enigmas, sendo inclusive encarados com desconfiança por personalidades como Filipe IV de França.
No banquete de confraternização entre portugueses e aragoneses, Raimundo Lulo mencionou a intrigante viagem de um italiano à China, Marco Pólo de sua graça, que, volvido à sua terra, ditara as suas aventuras a um companheiro de prisão, Rusticiano de Pisa.


Dom Dinis Papel (1).JPG

O meu romance sobre Dom Dinis pode ser adquirido na LeYa Online, na Wook, na Kobo e na Amazon. A Amazon.com permite o pagamento em dólares.

No Brasil, está disponível na Livraria Saraiva e na Livraria Cultura.

A versão em papel não se encontra à venda nas livrarias, pelo que os interessados devem contactar-me pelo email andancas@t-online.de, ou através de mensagem privada no Facebook.