Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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9 de julho de 2018

Contos da Emigração (8)



«Ao chegarem a casa, reparam que as caixas do correio na entrada têm todas um autocolante artesanal com nomes diversos, parecem apelidos, que ninguém se chama Schmidt nem Müller de primeiro nome. Rui toma nota mental para averiguar o que é que vão ter de pôr na caixa de correio deles e como é que adivinham qual é a deles, não há números a distinguir e as campainhas também não indicam os andares. Descobre mais tarde que é a preocupação com a privacidade e com quem espreita que leva a estes excessos securitários».

In "partida largada fugida", Rita Sousa Uva



2 de julho de 2018

Contos da Emigração (7)



«Imaculada não era uma cebola racista. Os rabanetes, por exemplo, não lhe faziam impressão, mas, por outro lado, não gostava, nem de beringelas, que matavam quem não acreditasse lá nas divindades delas, nem de beterrabas, que eram sujas e cheiravam mal. E havia cada vez mais desses vegetais no bairro onde vivia».

In "O Sobrinho", Nuno Gomes Garcia



24 de junho de 2018

Contos da Emigração (6)



«A escola pública alemã, onde comecei a ir às aulas a meio do ano lectivo, era tão rica que fiquei deslumbrado. Um átrio e escadarias em mármore, ginásio, quadros nas salas de aulas que deslizavam para cima e para baixo e casas de banho tão limpas que pareciam de contos de fada. Uma vez por semana íamos à escola primária junto ao UniCenter, que tinha uma piscina interior para as aulas de natação. À porta da escola havia alunos com blusões de ganga sem mangas que me queriam bater porque eu não falava alemão. Todos os dias tinha que andar à luta ou fugir».

In "A minha bicicleta verde"
Miguel Szymanski



17 de junho de 2018

Contos da Emigração (5)



«Aos domingos à tarde, durante o verão em Berlim, não é preciso muito esforço para ocupar o tempo. O tempo ocupa-nos. O dia começa muito cedo e não tem pressa de acabar. Espreguiça-se pelas curvas do rio e chega-nos num bafo quente que nos entorpece e faz divagar. Se seguirmos pelas margens do rio afora, em poucos passos nos deparamos com espaços despovoados e escassamente organizados. Ruínas de casas de paredes de tijolos vermelhos cobertas de indecifráveis escritas denunciam passagens ilícitas e provocadoras. Uma vereda aberta por entre os arbustos espreita um pescador e a sua bicicleta».

In "Uma história verdadeira"
Luísa Coelho





10 de junho de 2018

Contos da Emigração (4)



«Tiradas invariavelmente no mês de agosto, as férias de verão, ainda que significassem o regresso adiado ao anseio antigo de voltar definitivamente, eram o melhor período da sua vida: delas arrancava o suplemento vitamínico que lhe recobrava as forças para o resto do ano».

In "O Apelo do Vale"
Isabel Mateus



2 de junho de 2018

Contos da Emigração (3)


«"Where are you from, man? African?, perguntam-me às vezes, desconfiados. Torcem o nariz quando lhes respondo que sou português. "You look like a nigger.", enfatizam, olhando-me as feições com impaciência. Eu encolho os ombros. Geralmente são cotas, que vivem em casas do council, não trabalham, vêem televisão o dia todo e protestam continuamente contra a escumalha de estrangeiros que vem para aqui roubar o que é deles».

In "Cab driver", Gabriela Ruivo Trindade







26 de maio de 2018

Contos da Emigração (2)



«A ilusão do regresso ao sítio onde pertencemos não passa mesmo disso: de uma ilusão».

In "Vidas Adiadas", Cristina Torrão





19 de maio de 2018

Contos da Emigração (1)



«Caminhávamos como fantasmas que tinham ido longe demais e para quem não haveria regresso a uma realidade familiar».

In "A Salto", Ana Cristina Silva