Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

9 de janeiro de 2012

Conversas com a Carolina



Em Conversas com a Carolina, João Raposo dá à filha conta daquilo que ele acha essencial para a vida. Porque, como nos diz o sub-título: "A educação dos nossos filhos é um caminho sem mapa". Eu acho que João Raposo se esforça por desenhar esse mapa de uma forma muito honesta. E é disso que precisamos, acima de tudo: honestidade.

É um livro para ser lido, não só pelos filhos, como pelos pais e, depois, discutido. Porque conversar não é só falar. Conversar é também ouvir; conversar é uma maneira de fortalecer relações; conversar é dar atenção, é reservar tempo para alguém. E uma das maiores queixas dos filhos, hoje em dia, é que os pais não têm tempo para eles.

Aqui, algumas passagens das Conversas com a Carolina:

É bom que nunca esqueças que a culpa das nossas decisões não é dos outros.

O sonho realiza-se com trabalho e vontade, não com desejos, mas com quereres.

Todos desejam voar, mas poucos sabem ou querem saber o custo das suas asas. Poucos querem saber como se constroem as asas da sua liberdade e, ignorantes da própria ignorância, apenas voam para a sua perdição e a dos que neles acreditam.

"Ama os outros como a ti mesmo". O que na prática acontece é que as pessoas são incapazes de se amarem a si mesmas. Portanto, ao amarem as outras como a si mesmas, não amam. Poderia, sem invocar qualquer preceito religioso, falar do respeito pelo outro, que é o mesmo que o respeito por nós mesmos.

Só dá quem é rico. Não estou, obviamente, a falar de riquezas materiais. Falo da riqueza interior. Falo de pessoas que se amam a si mesmas e que realizam esse amor dando aos outros. Falo de riqueza intelectual e moral.

Somos aquilo que fazemos e não o que queremos pensar que somos.

São tantos os pequenos e grandes momentos de felicidade, que por vezes se torna difícil entender porque andam as pessoas a dizer que não são felizes, que a felicidade não existe, ou a interrogarem-se, talvez hipocritamente, sobre o que é isso da felicidade, como se a sua incapacidade de a definir provasse a sua inexistência.

Pode-se ler mais no blogue Conversas com a Carolina, que igualmente informa sobre os locais onde se pode adquirir o livro. João Raposo tem mais dois blogues: Crónicas do Meu Descontentamento e Crónicas de Utolândia.

6 de janeiro de 2012

O Mar

Cresci com o mar à beira dos olhos. Nunca vivi sem ele. Faz-me falta como ar - são palavras de Pedro Rolo Duarte, que me recordaram a falta que o mar me fazia, nos meus primeiros tempos na Alemanha.

Na verdade, até sou uma privilegiada, estou a cerca de 90 km da foz do rio Elba, que desagua no Mar do Norte, numa cidade chamada Cuxhaven. É lá que os navios entram nesse rio, a fim de atingirem o famoso porto de Hamburgo.

Estava cá há cerca de meio ano, quando disse ao meu marido que tínhamos de lá ir, pois, apesar de ainda ser Inverno, eu queria ver praia: a areia e o mar.
Lá chegados, a expectativa era grande, ao estacionarmos o carro. A praia não se avista da estrada, é preciso subir a a um dique, em certos sítios até existem escadinhas. Subi-as ansiosa, mas, chegada ao cimo... a desilusão! Vi areia, mas não vi mar nenhum!!!
"Isto é que é a praia?" perguntei. "Onde está o mar?"
"Bem", respondeu o meu marido, "é maré baixa."
"E depois?"
"O mar recua vários quilómetros, deixa de se ver."
Uma destas!
Fomos consultar a tabela das marés e constatámos que demorava algumas horas a vir o mar. Tivemos de ir embora, sem o ver., o que, na altura, muito me desiludiu.

Entretanto, já lá fui mais vezes e vi o Mar do Norte, até já banhei nele. Claro que não se compara ao Atlântico, só se formam ondas quando há tempestades, isto é, Outono/Inverno. Mas esta coisa de haver uma grande diferença entre a maré alta e a baixa tem as suas vantagens.

Aqui, uma fotografia, numa altura em que a água começa a desaparecer:


Permite-nos ir até bem longe da praia. No sítio onde tirámos esta, a água dava-nos apenas pelos tornozelos:



Aqui, um aspecto da praia, que, em vez de barracas, tem estes bancos protegidos por uma espécie de concha, chamam-se Strandkorb ("cesto" de praia):



A água desaparece por completo, permitindo organizar passeios e excursões no sítio onde, pouco tempo antes, se podia nadar. Ao largo de Cuxhaven, há uma ilha, a cerca de 11 km da costa, que se pode atingir a pé, ou nestas carroças castiças, puxadas por cavalos:




4 de janeiro de 2012

Ainda o Peto


Depois de aqui ter publicado a opinião da Maria Manuel sobre este livro, deparei com a da Carla Ribeiro, d'As Leituras do Corvo, que me lembrou uma problemática frequente.

Também a Carla Ribeiro se congratula com o amor que a autora expressa pelos animais. Mas lamenta a forma severa (e, por vezes, um pouco agressiva) com que Paula Cairo se refere aos envolvidos nessa experiência, um sentimento que, por vezes, parece estender-se até a quase toda a humanidade. A impressão que fica é a de que nesses momentos, se julga o todo pelas partes conhecidas, resultando numa visão global negativa (e algo injusta).

Na verdade, muitas das pessoas que se ocupam com animais, um trabalho que muito admiro, ficam com uma visão amargurada dos humanos, ao aperceberem-se das crueldades de que alguns de nós são capazes. Não digo que não será legítimo. Por outro lado, se hostilizarmos demasiado os nossos semelhantes, em nada contribuímos para ajudar os animais. Pelo contrário! Quem, já de si, não possui sensibilidade para este tema, distancia-se cada vez mais, convencido de que os defensores das causas dos animais não passam de fundamentalistas, que põem os interesses dos bichos à frente dos nossos.

É o que acontece, quando se depara, por exemplo, com a notícia de um escritor sul-americano, vencedor de um chorudo prémio (150.000 dólares), que anuncia doar o dinheiro a instituições que se ocupam de animais. Não falta quem diga que na América do Sul há problemas mais urgentes, como crianças com fome, etc. e tal. Ou quando a luta contra as touradas assume proporções ridículas, em que alegados defensores dos direitos do touro chegarem a sustentar a condenação à morte de quem se assume como amante de touradas.

Como diz a Carla Ribeiro, é pena, porque há muito de maravilhoso nas "aventuras" de Peto.

É mesmo pena! Porque, enquanto nós humanos nos ocupamos em extremar as posições, esgrimindo argumentos cada vez mais radicais, quem mais sofre são os próprios animais. Que não têm culpa nenhuma!

2 de janeiro de 2012

O Profeta do Castigo Divino


É curioso verificar que houve um Jesuíta português que previu o grande terramoto de 1755. O padre Gabriel Malagrida, conhecido pelas suas visões proféticas, depois de missionar os índios brasileiros durante vários anos, regressa à metrópole e recebe essa revelação de soror Maria Joana, no convento do Louriçal. A freira morre logo a seguir e Malagrida anuncia o fenómeno, acertando no dia e na hora.

Esta sua previsão, porém, é abafada pelo Secretário de Estado Sebastião José de Carvalho e Melo, que ficou conhecido por Marquês de Pombal e que desdenha dos Jesuítas, cultivando mesmo um grande ódio por Malagrida. Sebastião José recusa-se, acima de tudo, a aceitar que o terramoto aconteça por castigo divino, em consequência da vida pecadora dos portugueses. Uma atitude meritória, naquela altura, em que se tentava acreditar mais na Ciência, em detrimento da Igreja. Mas a desgraça aconteceu!

Neste bem pesquisado romance, Pedro Almeida Vieira dá-nos um retrato de Portugal no século XVIII e das missões dos Jesuítas por terras brasileiras, não escondendo aspectos menos bons do processo de conversão dos índios. A corrupta Corte portuguesa e a incapacidade dos monarcas D. João V e D. José em certas situações são-nos descritas cheias de ironia, com lugar para episódios patéticos, mas, nem por isso, menos verdadeiros.

Nota: no seu site, Pedro Almeida Vieira tem uma base de dados sobre o romance histórico publicado por escritores portugueses, desde o século XIX. É a biblioHistória.

31 de dezembro de 2011

A todos, um Bom 2012!

Muito aconchegadinho!


Porque, se não tivermos mais nada, temo-nos uns aos outros!

Costumes Curiosos (2)

Vamos então ao fenómeno Dinner for One!


Dinner for One, também conhecido por The 90th Birthday, é um sketch de comédia britânico, com cerca de 15 minutos de duração, escrito para o teatro nos idos anos 1920. Em 1963, a NDR, estação televisiva alemã, gravou uma representação que se tornou na peça televisiva mais repetida de todos os tempos (registada como tal no Guinness Book of Records, 1988-1995; as edições posteriores não contemplam esta categoria).

E agora eu digo-vos como foi atingido este recorde: os alemães deliram tanto com esta peça (um fenómeno difícil de explicar, pois aqui não se aprecia muito aquilo que vem das ilhas Britânicas), que ela é repetida, desde 1963, todos os anos, na véspera de Ano Novo! E isto não só num canal televisivo, mas em vários! Milhões de alemães vêem o sketch ano após ano e desfazem-se em riso, mesmo aqueles que não percebem patavina de inglês. E isto constitui o próximo fenómeno, pois a transmissão alemã não tem legendas, nem é dobrada!

Trata-se de uma senhora que, no seu aniversário, convida sempre quatro amigos muito especiais. No dia do seu 90º aniversário, porém, já nenhum deles está vivo. A senhora recusa-se a aceitar esse facto e o seu mordomo, também ele já velho, põe a mesa como habitualmente e serve o jantar, constituído por quatro pratos. O homem vê-se obrigado a representar o papel dos quatro convidados e a brindar, por cada um deles, entre o servir de cada prato. Apanha uma grande bebedeira e o cómico do sketch está precisamente no facto de ele servir à mesa, cada vez mais borracho.

A peça tem piada, mas não sei porque é que os alemães a vêem, todos os 31 de Dezembro, há quase 50 anos!

Para quem estiver interessado, pode ver o sketch aqui. Embora acuse o pó dos anos, é divertido. Escolhi uma versão com legendas francesas, porque a alemã (sem legendas) tem um apresentador que, no início, fala cerca de três minutos.

29 de dezembro de 2011

Costumes curiosos (1)

Os alemães são vistos com muita desconfiança por terem provocado duas guerras mundiais no mesmo século, muita gente se pergunta que tipo de povo é este. Depois de quase 20 anos na Alemanha, não vejo grandes diferenças, no geral. Há gente de que gosto, há gente que me irrita, há simpatias, há hipocrisias, etc. Mas é claro que há muitas diferenças, em relação a Portugal. Este post da Rita fez-me lembrar uma característica alemã curiosa: o costume de ver, repetidos até à exaustão, certos filmes e/ou programas de televisão e surpreender-se, ou rir-se, de todas as vezes como da primeira! Isto é tanto mais estranho, porquanto se trata de películas sem qualidade, algumas delas mesmo imbecis.

Começo pelos filmes da dupla Bud Spencer/Terence Hill. Não sei se se lembram do cow-boy Trinitá, ou dos Dois Missionários. Pois! Estes eram os únicos filmes que eu conhecia da dupla italiana (que já me aborreciam quando eu tinha 12 ou 13 anos). Mas isso era antes de vir para a Alemanha. Há muitas mais destas "obras de arte", cada uma mais imbecil do que a outra. São constantemente repetidas por alguns canais alemães, a ponto de representar excepção passar mais de meio ano sem isso acontecer!
Ao fim de 20 anos, uma pessoa acaba por tomar mais ou menos contacto com os filmes e houve um que me chamou a atenção. O título original é Non c’è due senza quattro, rodado no Rio de Janeiro, nos anos 80, e conta com a participação de actores de telenovelas que eu conhecia, dessa altura.


Resta dizer que Bud Spencer publicou, há meses, uma auto-biografia e conquistou os tops de vendas de livros cá do burgo!

Outro costume deste género tem por objecto os filmes de Louis de Funès, esse francês colérico, que dá pulinhos como um coelho a pilhas e se desfaz em esgares imbecis. Na verdade, ele teve algumas actuações de mérito e é muito considerado em França, mas a maior parte das películas são mesmo para atrasados mentais, especialmente, as do Gendarme de St. Tropez.


Os alemães adoram os filmes de Louis de Funès e - socorro gente - há dezenas deles! Cada um já mostrado pela milionésima vez, claro!

Um outro exemplo é uma trilogia, aqui considerada como um "clássico do cinema" (mas só mesmo aqui). Data dos fins dos anos 50/princípios de 60 e trata-se de um western de produção europeia, rodado em terras jugoslavas (já isto chega para nos pôr o estômago às voltas). A personagem principal é um índio, chamado Winnetou, que trava amizades fraternas com "brancos", que têm nomes sugestivos como Old Surehand, ou Old Shatterhand. Esta trilogia põe esta nação de trabalhadores disciplinados e, normalmente, nada dados a pieguices, a chorar baba e ranho! E, sim, no passado 24 de Dezembro, houve um canal que transmitiu a trilogia completa, de enfiada!


Os filmes são baseados na obra de Karl May, um autor alemão do século XIX, que escreveu inúmeros livros de aventuras.
Nos meus primeiros tempos neste país, numa reunião de família (sogros, cunhados, sobrinhos), começaram todos a falar de Winnetou. Ele era Winnetou para aqui, Winnetou para acolá... Decidi-me a perguntar: "Mas, quem é Winnetou?" Todos me olharam como se eu viesse de outro planeta!

Enfim, um outro caso digno de estudo tem a ver com um antigo sktech britânico, intitulado Dinner For One, este sim, com a sua piada. Mas merece um post exclusivo, até porque se aproxima a data em que ele será mostrado pela, sei lá, trilionésima vez!

28 de dezembro de 2011

Passatempo Fado/Cruz de Esmeraldas

Como prometido, aqui ficam extractos de textos que, apesar de não terem vencido o passatempo, são dignos de menção.

A Ana Sofia Allen cita Fernando Pessoa: "O fado é o cansaço da alma forte, o olhar de desprezo de Portugal ao Deus em que creu e também o abandonou". Identificando o fado como "dor transformada em música", Ana Sofia Allen explica porque o fado é entendido noutros cantos do mundo:

Com o coração [os estrangeiros] sentem o que as palavras não entendem - um profundo pesar e um encantamento próprio que só o fado pode dar.
(...)
E tal como um insecto pode ser preservado em âmbar durante milhares de anos, o fado continuará a preservar e a alimentar a essência humana, com o mesmo brilho e profundidade da resina.
(...)
A partir de agora, o fado (...) é um tesouro do mundo. Um tesouro que fala de Portugal, da sua cultura, da sua língua, dos seus poetas, mas também de algo comum a todo o ser humano - os sentimentos.

O Pedro enviou um dos seus poemas, que, na sua simplicidade e economia de palavras, tanto dizem:

o fado moderno
o fado antigo
o fado da tasca
é tudo fado

de verdade, o fado
é fugidio
é o fado do eu
o fado da dor

A Cristina Tordo intitula o seu texto Fado de um rio e faz um interessante paralelismo entre o fado, que nasce "alheio às limitações de uma cultura", e o Tejo, que não sabe "o que é ser-se prisioneiro de uma fronteira, limitações dos homens":

Na melodia de uma guitarra este lamento é poema, num canto que de tanta boémia, soa a santidade.
(...)
Por viver na alma do povo, o fado herdou a liberdade em ser do mundo, como um copo de taberna que transborda sobre a mesa. Mas tal como o Tejo, o fado será sempre nosso!

Os meus agradecimentos a todos os que participaram. Surgirão novas oportunidades (com outros temas), pois tenciono repetir esta experiência gratificante.

26 de dezembro de 2011

Passatempo Fado/Cruz de Esmeraldas

"A algunos de mis amigos de España (aunque también de otros países) no les gusta el fado. A mi sí."

Bartolomé Bauzá


Devido à qualidade e beleza de alguns textos, a escolha foi difícil. Decidi-me pelo de Bartolomé Bauzá, apesar de, em parte, ser escrito em castelhano. Ou talvez por causa disso! Habituada a considerar o fado algo de que só os portugueses falam (em 19 anos de Alemanha, só uma única pessoa me falou no fado, sem eu o ter referido antes), confesso que me surpreendeu esse jeito de escrever sobre o fado em castelhano. Sobretudo em castelhano! E, no meio da hesitação, teria de haver algo que ditasse a decisão final.

Num próximo post publicarei extractos de outros textos de que gostei particularmente. Para já, deixo-vos com o vencedor:


A algunos de mis amigos de España (aunque también de otros países) no les gusta el fado. A mi sí. Oí que el fado tenía sus orígenes en las cubiertas de proa de los barcos que hacían la ruta de ultramar.

Eu sou marinheiro, como o meu pai e os meus dois avôs;  talvez para compreender o fado é preciso entender primeiramente o mar.

La mar, como decimos en España. En femenino, como un nombre de mujer.

Maria Lisboa. María del Mar.

Un amigo mío -otro, a éste le gusta el fado- me citaba a Rilke: hace falta una vida para escribir un verso.

Faz falta uma vida para cantar um fado...
Faz falta uma vida para ouvir um fado...

Faz falta uma vida para compreender o fado.

Quizá es porque no han vivido. No lo suficiente. No con intensidad. No en la mar.

Não com saudades.

No con miedo.  Separados de quién se quiere.

María del Mar. Maria Lisboa.

Isso são saudades…

Para trabajar en la cubierta de proa de un barco hace falta ser un hombre duro. Miro hacia atrás, a la costa que se aleja. Todavía hay alguna gaviota con nosotros.

Nao gosto do meu companheiro. Ele tem um walkman. Rock and Roll.
Eu tenho, as gaivotas, ainda.
Eu tenho o fado. Cá, na minha cabeça.
Lá, na costa. Nos seus lábios cantores.

Definitivamente, no me gusta ese tipo.

María del Mar. Maria Lisboa.

24 de dezembro de 2011

Um Conto para o Natal

Lido algures

Era uma vez um mosteiro que tinha dificuldades em recrutar novos monges. As zangas eram constantes, na procura da culpa para a situação. O abade resolveu aconselhar-se com um eremita, que, depois de ouvir as suas queixas, apenas declarou: «O Messias está entre vós»!
O abade regressou confuso ao mosteiro e limitou-se a anunciar: «O Messias está entre nós»! Os monges estupefactos desataram a perguntar uns aos outros: «Quem poderá ser? É o irmão José o Messias? Ou o irmão João? Ou o próprio abade? Ou sou eu próprio?»
A partir daquele dia, nada mais foi como dantes. Os monges encaravam-se com respeito, as zangas terminaram, assim como os receios quanto ao futuro do mosteiro. Trabalhavam com afinco, celebravam os Ofícios Divinos com maior convicção e davam mais atenção às palavras da Bíblia. A comunidade exalava a luz de quem, finalmente, encontrou o seu caminho e possuía a esperança de alcançar o seu objectivo.
Os visitantes do mosteiro ficavam impressionados com o espírito que lá se vivia e falavam sobre isso nas suas cidades. Cada vez havia mais gente com vontade de conhecer aquele sítio. Muitos desejavam fazer parte daquela comunidade e tornavam-se monges.

Os resultados podem ser surpreendentes, se respeitarmos as pessoas à nossa volta e se demonstrarmos confiança nas suas capacidades!

A todos os que por aqui passam, desejo um Feliz Natal!


22 de dezembro de 2011

Passatempo (VIII)

Adenda de 24.12.2011:
Com o Passatempo fechado, resta-me agradecer a todos os participantes. A escolha vai ser difícil, há vários textos bons. Publicarei o resultado no início da próxima semana!


Às 23:59 de amanhã, 23 de Dezembro, acaba o prazo para o envio dos textos do passatempo. Eu já tenho um favorito. Ou será que ainda aparece algum melhor?

Informe-se aqui sobre o tema ;-)

21 de dezembro de 2011

Vida inventada

Da autoria de J. Rentes de Carvalho:

É humana, muitas vezes até simpática, a curiosidade pela vida alheia, mas mesmo que se trate de uma que não seja corrente nas peripécias e de desenlaces imprevisíveis, ninguém quer a versão original. Há por parte de quem pergunta o anseio quase infantil de ouvir histórias, casos incomuns, e por seu turno o narrador alegremente cumpre, evitando os escolhos, sobrepondo a versão cosmética à da realidade.
Bem é que assim seja e muito desagrado se poupa, pois do mesmo modo que evitamos  desnudar-nos em público, acalentamos, uns e outros, a ilusão de que somos interessantes ou até excepcionais.
Metendo a mão no peito, sabemos que de facto nenhuma vida se conta, nem talvez se possa  contar, já que a verdadeira até de nós próprios a escondemos.
Graças a Deus, que tudo arranja, faz Ele com que isso não nos torne infelizes, deixando-nos viver a vida que inventamos, mais  fácil de suportar.

19 de dezembro de 2011

Peto

Hoje, ao divagar pela lista dos blogues que sigo, deparei com o Peto. E o Peto sobressaiu de todos os outros posts. A figura do Peto, a sinopse do livro e a opinião, escritas com tanta sensibilidade e carinho pela Maria Manuel, do Marcador de Livros, tocaram-me tanto, que aqui vai:


Sinopse:
O Peto apareceu na rua, ainda bebé, e lá viveu durante doze longos anos, comendo dos caixotes do lixo. A certa altura, duas senhoras repararam nele e foram-no protegendo como podiam, dando-lhe comida e água. E ele por ali foi ficando. Foi recolhido duas vezes por pessoas que o voltaram a abandonar porque, afinal, era grande demais ou deixava a casa cheia de pelos. Na sua vida na rua, foi agredido diversas vezes e durante muito tempo teve dificuldade em usar as patas traseiras. Foi também atropelado mais do que uma vez. Chegou a ser esfaqueado na barriga. Tinha Leishmaniose, e por dormir tantos anos ao relento sofria ainda de artrite, passando a ter de tomar medicação quatro vezes ao dia. Foi atacado diversas ocasiões por cães com «donos perigosos» e o seu corpo ficou marcado por várias cicatrizes. Enfrentou duas denúncias de vizinhos, que não o queriam ali. Numa das vezes acabou num canil para ser abatido, como tantos outros cães vadios. Mas foram buscá-lo e ele voltou à sua rua. A sua sorte mudou quando, um dia, Paula, reparou no cão meigo e triste que se arrastava cheio de sangue, terra e pó. Começou por lhe limpar as feridas. Acabou por saber a sua história e seis meses depois, em Novembro de 2005, levou-o para casa e encheu-o de amor. Peto escapou da morte nesse inverno.

A minha opinião:
Esta é a história de um cão de rua sortudo que apanhou pela frente Paula Cairo uma defensora dos animais como há poucas. Foi levado para casa da autora do livro com doze anos e que, apesar de nunca ter tido cães e ter já alguns gatos em casa, não hesitou e acolheu o cão de olhos doces e que precisava de carinho e de cuidados. E até se ter transformado numa grande amizade foi um passo. A partir daí nunca mais se largaram. Peto foi o seu companheiro até à morte deste, aos 18 anos. Por tê-lo adoptado foi olhada por diversas vezes de lado e criticada, teve de mudar de casa porque os seus vizinhos não aceitaram bem aquela adopção, mas mesmo assim Paula não esmoreceu e levou a sua ideia avante: não iria largar Peto. E foram muito felizes juntos, vivendo várias aventuras com outros animais que foram vivendo também nas suas casas.
Também eu adoro animais e não consigo ver ninguém a maltratá-los, mas admiro a coragem da autora e adoptá-los e dar o seu amor pelos seus amigos de quatro patas. Também eu tenho uma gatinha e esta também faz parte da família. É tratada como tal por toda a gente e é assim que deve ser. Infelizmente nem todos pensam assim e a lei não pune os infractores...

Pois, a lei não pune os infractores...

Por aqui, já se vai fazendo alguma coisa. Por estes dias, em Hamburgo, um homem  atirou com um cão Jack Russell Terrier (a raça da minha Lucy) contra a parede, por ele ter roubado um pão que estava em cima de uma mesa. O homem estragou-lhe a anca de tal maneira, que o cãozinho, de apenas um ano, vai ter problemas durante toda a sua vida.
O homem foi condenado, por um tribunal, a pagar cerca de 2.600 euros. Acho pouco!!!

18 de dezembro de 2011

"Deves amar o próximo como a ti mesmo"

Assim nos ensina a Bíblia. Mas sejamos sinceros: quem consegue dizer que se ama? Não nos achamos cheios de defeitos? Não nos tratamos mal, chamando-nos de parvos e estúpidos? Não nos achamos, inúmeras vezes, inferiores aos outros e não desejamos ter a vida deles, que julgamos mais felizes do que nós?

Condenamos o egoísmo. E há um egoísmo prejudicial, sim, mas ao mesmo tempo, existe um egoísmo saudável e, eu diria mesmo, vital. Não encontraremos paz interior, enquanto não nos ocuparmos de nós próprios. Só assim reuniremos condições de amar e ajudar o próximo. Caso contrário, somos vítimas fáceis do egoísmo prejudicial e doentio. E aí não adianta que nos preguem a humildade, a obediência, o sacrifício e a paciência. Se não temos nada para dar a nós próprios, também não encontramos nada para os outros.

Dito por outras palavras: antes de irmos ajudar os outros a arrumar a casa deles, será melhor arrumarmos a nossa. Que energia temos para as casas dos outros, se sabemos que, na nossa, reina o caos? Podemos abrigar-nos no artifício de nos distrairmos: enquanto arrumamos o lar alheio, esquecemos a desordem e a sujidade do nosso. Mas tanto maior será a desolação e a tristeza, quando lá regressarmos.

Não devemos ter medo, nem vergonha, de admitir que velamos, acima de tudo, pelo nosso próprio interesse. Não no sentido de nos julgarmos superior aos outros e de querermos ostentar riqueza, enquanto eles se afogam na miséria, mas no sentido de arranjarmos a energia e a paz que nos permitam encarar, seja quem for, em pé de igualdade; a energia e a paz que nos permitem subir ao degrau mais alto, mas, também, descer, sem preconceitos, a um mais baixo, em caso de necessidade.

Devemos tratar de nós próprios como, em criança, desejávamos que os nossos pais nos tratassem.

16 de dezembro de 2011

Tertúlia na Bertrand de Braga



É já amanhã, às 17 horas! Com a moderação do Manuel Cardoso do blogue Dos Meus Livros e colaborador do Destante.

Admiro quem faz crítica de livros na blogosfera. Porque o faz apenas pelo amor aos livros.