Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

10 de novembro de 2011

Ter alguma coisa para dizer

O escritor brasileiro Rubens Figueiredo, vencedor do Prémio Portugal Telecom de Literatura 2011, diz não ser movido apenas pela palavra. "Eu só começo a escrever quando tenho alguma coisa para dizer". Além disso, o livro vencedor, "Passageiro do Fim do Dia", não tem a pretensão de buscar coisas "grandiosas" ou "definitivas".

Ainda bem que há escritores que pensam assim e que ganham prémios. Eu, pelo menos, não tenho paciência para escritas pomposas que não me dizem nada, prefiro uma linguagem simples, que torne os sentimentos palpáveis, sem pretender dar soluções, ou ser definitiva.

Numa outra entrevista, Rubens Figueiredo afirma que quis abordar a questão da desigualdade social e da dificuldade de vermos os outros como iguais a nós mesmos.

Penso que são razões suficientes para se comprar este livro, eu, pelo menos, fiquei muito curiosa.

Rubens Figueiredo diz, ainda, escrever "só nas horas vagas". Mas... Quem não o faz? Quantos escritores se podem dar ao luxo de se dedicarem apenas à escrita?

Via Blogtailors

9 de novembro de 2011

Revistas cor-de-rosa

No Verão passado, o jornalista Pedro Rolo Duarte confessou comprar e ler revistas cor-de-rosa. Baseado na sua experiência, desenvolveu uma espécie de dicionário muito divertido, de que se seguem três exemplos:

 A figura X afirma: “Estou disponível para o amor”. Isso é o mesmo que: “Por favor, alguém me pega?”. Ou: “Hello, não querem ser meus amigos no Facebook?”


A legenda da revista afirma que a figura X, “aos 42 anos, está em excelente forma física”. Tradução: ainda não é este ano que fazemos uma reportagem com ela no Ângelo Rebelo.


Ou... “Aos 47 anos, recuperou a sua auto-estima”. Tradução: foi ao Ângelo Rebelo.

Eu não sou grande consumidora dessas revistas e é verdade que limito a sua leitura às idas ao cabeleireiro, ou ao médico (por isso, só leio alemãs). Mas confesso que as acho interessantes. Por um lado, acho útil andarmos informados, seja sobre o que for. Aliás, como só leio alemãs, tenho sinceramente pena de, em Portugal, muitas vezes, não saber de quem se trata, quando as pessoas falam em fulana ou sicrano. Por outro, enriquecemos o nosso conhecimento da natureza humana. Gosto sempre de saber até onde as pessoas são capazes de ir, não só neste campo, como em todos os outros. Além disso, uma mulher deve acompanhar a moda.

E assim se prova que qualquer leitura pode ser instrutiva, tudo depende da maneira como a encaramos.

8 de novembro de 2011

De cara nova

O 2711 está de cara nova e ficou ainda mais bonito.

Vão lá ver e digam se não é verdade...

6 de novembro de 2011

Os amanhãs que cantam

Vivo, há quase 20 anos, num país que vê o ideal comunista destituído de qualquer romantismo e constato que, em Portugal, de vez em quando, ainda se nota uma nostalgia herdada da Revolução de Abril. A última vez, foi no Horas Extraordinárias, onde a sua autora dizia:

Quando fui a Cuba no início dos anos 90, levaram-me a uma fábrica de charutos em Trinidad, cidade belíssima, onde alguém me contou que em tempos os operários contavam com a ajuda de um funcionário que lhes lia romances enquanto trabalhavam. Também na Europa de Leste, em alguns países, era prática comum ler-se para os trabalhadores fabris, não sei se para os ilustrar, se para os entreter.

Alguns comentários elogiam igualmente a cultura dos países de leste. A mim não me consta que os habitantes da antiga RDA, que, pelos vistos, terão ouvido grandes obras literárias enquanto trabalhavam, sejam mais cultos que os ocidentais. Pelo contrário! Ainda hoje se nota neles o "novo-riquismo", uma grande ânsia de consumismo e de imitar os do ocidente. Isso verifica-se, aliás, em todos os países do antigo Bloco de Leste, com a Rússia à cabeça. Se liam em voz alta aos operários, ou era para os desviar de certos pensamentos "perigosos", ou se tratava, pura e simplesmente, de propaganda. Os dirigentes de regimes totalitários nunca deram ponto sem nó e sempre se serviram da censura.

Além disso, certos comentários manifestaram igualmente o seu encanto pelo povo cubano, que, mesmo na miséria e sob um regime que o subjuga, não perde a vontade de se divertir e de olhar para o lado belo da vida. Desculpem, mas, com todo o respeito que os cubanos me merecem, isto deixa-me um certo amargo de boca, um sabor salazarista: pobrezinhos, mas alegres, contentes e conformados! Há um certo resíduo letárgico neste tipo de atitude. Se os cubanos mostrassem mais vezes o seu descontentamento e se revoltassem contra a pobreza e a injustiça em que vivem, talvez já tivessem expulsado da sua ilha as múmias que os governam!

Combinar a nostalgia do comunismo com a herança do salazarismo... Só mesmo em Portugal!

4 de novembro de 2011

Para desentristecer


Gosto muito de te ver, leãozinho
Caminhando sob o sol
Gosto muito de você, leãozinho




Para desentristecer, leãozinho
O meu coração tão só
Basta eu encontrar você no caminho




Um filhote de leão raio da manhã;
Arrastando o meu olhar como um ímã...




 O meu coração é o sol, pai de toda cor;
Quando ele lhe doura a pele ao léu...




Gosto de te ver ao sol, leãozinho
De te ver entrar no mar
Tua pele, tua luz, tua juba




Gosto de ficar ao sol, leãozinho
De molhar minha juba
De estar perto de você e entrar numa





Bom fim de semana para todos!
Nota: a fotografia da bebé com a cadela labrador foi tirada daqui.

31 de outubro de 2011

Aprender a Rezar na Era da Técnica



Lenz Buchmann, um cirurgião que, a certa altura, decide seguir a carreira política, é destituído de sentimentos, devido à educação que teve. Os agradecimentos e os elogios incomodam-no, tudo o que seja emotivo é por ele desprezado:

Mas a cada dia que passava, os elogios e a admiração técnica que os doentes, os colegas médicos e o pessoal do hospital lhe dirigiam tornavam-se insuportáveis. Não o irritava ser considerado competente mas sim que essa competência fosse confundida com uma certa bondade, sentimento que desprezava em absoluto. E essa confusão - entre bondade e competência técnica - começava a corroer a barreira que Lenz havia construído entre a sua profissão e a sua vida particular na qual a dissolução de valores morais era nítida. O prazer que sentia em humilhar prostitutas, mulheres fracas ou adolescentes, pedintes que lhe batiam à porta ou a própria mulher, não podia ser mais antagónico com a aura que alguns familiares de doentes por si operados e salvos lhe colocavam em volta.
(página 32)


Este livro é uma verdadeira sucessão de frases de alta qualidade literária e o carácter da personagem principal espelha-se, tanto na linguagem fria, mas eficiente, como na estrutura de capítulos curtos e estanques. Dir-se-ia tratar-se de um livro perfeito.

Mas quanta perfeição aguentamos? Às vezes, eu tinha a impressão de estar a ler algo escrito por uma máquina programada com a receita da qualidade literária pura e dura. Chegou mesmo a aborrecer-me, confesso que estive para o largar.

Mas a persistência compensou. Um crime e a doença de Lenz Buchmann acabaram por fazer deste livro um romance que cativa o leitor, a ponto de lhe custar largá-lo, para fazer uma pausa. Por fim, a ironia suprema: Lenz Buchmann, que gosta de humilhar os outros e que não admite uma falha (principalmente, em si próprio), acaba os seus dias totalmente inútil e fraco. A humilhação final é deixar-se chegar a um estado que não lhe permite sequer suicidar-se, seguindo o exemplo do pai (Pelo chumbo - dizia Frederich ao seus dois filhos -, um Buchmann morre pelo chumbo; página 108), figura que ele venera, apesar de lhe ter dado uma educação desumana.

- Nesta casa o medo é ilegal - era uma das frases mais marcantes de Frederich Buchmann.
(...)
Frederich castigava as manifestações de medo de qualquer dos seus filhos fechando-os à chave num compartimento da casa, «a prisão», em que tapara as janelas, em que não havia uma única peça de mobília ou objecto.
Poucas vezes (embora marcantes) Lenz foi colocado na «prisão» por cometer a ilegalidade de mostrar medo. Pelo contrário, o seu irmão Albert era constantemente trancado naquele espaço que suspendia o lado lúdico, o ataque ou a defesa. Era, em absoluto, um espaço neutro, onde as funções dos gestos se tornavam nulas: o movimento era desnecessário e quase ridículo. As paredes não eram superfícies estimulantes para um humano, muito menos sendo ainda, esse humano, uma criança. Era um espaço, por isso, que esmagava a infância - uma massa pesada esmagando outra bem menos robusta -, era impossível naquele espaço agir ou mesmo pensar de acordo com a idade.
(páginas 91/92)

Um retrato psicológico interessante. Eu, porém, apreciaria uma escrita mais emotiva. Afinal, tudo na vida são emoções. Bani-las, como faz Lenz Buchmann, é ter medo delas; decretar o medo como ilegalidade, é ter medo do medo - nada mais emotivo.

30 de outubro de 2011

Mais um aniversário

Parece que foi ontem que a trouxemos cá para casa, uma cachorrinha de 8 semanas, que cabia em duas mãos. Tínhamos de ter muito cuidado para não a pisar, pois, na sua ânsia pelo calor de um ser vivo, estava constantemente entre os nossos pés. À noite, gania e tremia, tanta falta ela sentia do aconchego da mãe e dos irmãozinhos, mesmo estando o seu cestinho ao lado da nossa cama. De vez em quando, eu estendia a mão, para a tocar, e sentia-a a tremer. Mas sabia que, se a pusesse na cama, nunca mais a de lá tirava. Por isso, resistia à tentação, embora, por vezes, tivesse mesmo de cerrar os dentes. Tínhamos planeado tirá-la do quarto, assim que fosse mais crescida e perdesse o medo. Mas nunca tivemos coragem, ela lá continua, no seu sítio de sempre.


A nossa Lucy faz hoje 8 anos, o que, para um canino, já é alguma coisa. Felizmente, a esperança de vida de cães e gatos domésticos aumentou bastante, nos últimos anos, devido aos cuidados que se lhes proporcionam. Principalmente, os gatos fizeram grandes progressos, já vi bichanos na sala de espera do veterinário com respeitáveis 20 aninhos! Os cães de mais longevidade ficam-se pelos 15/16 anos (raças pequenas) e 12/13 anos (raças maiores). Mas tivemos um caniche aqui na vizinhança que ficou a um mês de completar os 18!

A ti, minha querida Lucy, desejo-te ainda muitos anos de vida. Obrigada por nos teres ensinado a amar e a respeitar, não em função do que alguém possa fazer por nós, mas apenas pelo simples facto de esse alguém existir. E por nos teres ainda ensinado em que consiste a verdadeira confiança mútua e a aceitar os outros, tal como eles são.



P.S. Não reparem no estado da manta, aos nossos pés. É a manta da Lucy, que ela pode esgadanhar a seu bel-prazer ;-)

28 de outubro de 2011

1º Aniversário

O Andanças faz hoje um ano e quero aproveitar esta ocasião para agradecer a todos os que por aqui passam.

Obrigada!

26 de outubro de 2011

Quando a televisão mete medo


Declarações de Renate Blum-Maurice, psicóloga, prestadas a um jornal alemão, sobre o efeito que a TV pode ter nas crianças (tradução minha):

É um erro pensar que crianças pequenas não registem o que ouvem ou vêem na televisão, mesmo os bebés podem já reagir a emoções negativas. Quando elas não entendem o que se passa, desenvolvem medo. Além disso, não controlam os seus sentimentos tão bem como os adultos e têm a tendência para achar que lhes poderia acontecer o mesmo, perante violência, ou uma qualquer tragédia. Se não se lhes explicar devidamente de que se trata, podem cismar, durante muito tempo, com imagens traumáticas. Os pais deviam controlar o tempo que as crianças passam em frente da televisão e, mesmo as que já se encontram em idade escolar, não deviam ver televisão sozinhas.

A melhor maneira de evitar os medos e os traumas, é falar sobre os programas que se vêem, principalmente, as imagens e as notícias más. Os pais devem falar com os filhos sobre aquilo que lhes mete medo e, claro, adaptar o discurso à idade das crianças.

Para a socialização das crianças, é preciso que elas aprendam que existe sofrimento, violência e crueldade. Mas, ao mesmo tempo, devem verificar que há pessoas que não ficam indiferentes a situações desse tipo e que se preocupam em ajudar e em trabalhar para a paz. Uma vez entendido isso, os pais podem dizer, com toda a clareza, que determinada situação também os assusta, ou os põe tristes.

Uma vida familiar estável, o brincar e o carinho ajudam a superar perturbações. Uma história, ou mesmo, uma oração, ao deitar, contribui para acabar o dia em bem e "despir-se" de vivências negativas.

23 de outubro de 2011

Do que as crianças realmente precisam



Li, num jornal alemão, uma entrevista a uma psicóloga infantil, Merle Dettbarn. E, porque adorei muitas das suas declarações, decidi partilhá-las aqui (tradução minha):

Os dias cheios de actividades, que os pais organizam para os seus filhos, podem pôr as crianças sob pressão. Os pais querem o melhor para os filhos, mas, cuidar deles é hoje, muitas vezes, confundido com desenvolver permanentemente o seu intelecto e as suas capacidades. Entre os trabalhos de casa, as lições de piano, a ginástica, a natação e outras actividades sobra pouco tempo para as necessidades emocionais das crianças. E, no entanto, elas precisam, acima de tudo, de boas relações pessoais para um desenvolvimento saudável - relações com os pais, com os amigos e com outros parentes. Quando perguntamos às crianças o que é importante para elas, as duas respostas mais frequentes são: tempo para brincar com os amigos; pais que se interessem por elas. Os pais deviam, por isso, fazer com que estes desejos fossem realizados.

Felicidade material não é a mesma coisa que felicidade emocional. Os media e a sociedade transmitem aos pais a mensagem de que os filhos são felizes se lhes forem proporcionados bens materiais. É claro que as crianças se alegram ao receber uma playstation nova. O importante é, no entanto, terem pais com tempo para elas. Com isto, não me refiro apenas à presença física, mas também emocional, ou seja, relacionar-se com a criança, mostrando verdadeiro interesse pelos seus assuntos e problemas.

Resposta à pergunta: o que deseja às crianças, hoje em dia?
Desejo-lhes tempo para brincar, tempo, que elas próprias planeiem. Desejo-lhes que se sintam integradas numa comunidade, que corresponda às suas expectativas. Pode tratar-se da família, mas também podem ser amigos, um bairro, ou um clube desportivo. As crianças não devem ser adultos pequenos, tomando responsabilidades que pertençam aos pais e às quais elas se sentem incapazes de corresponder. Desejo-lhes que possam ser crianças, com tudo o que este conceito engloba.

21 de outubro de 2011

Massacre



Para que fique claro: apesar de eu ser uma acérrima defensora dos direitos dos animais e de publicar histórias de amizade entre humanos e criaturas ferozes, não sou uma idealista, que julga que devíamos ir todos fazer festinhas às criaturas, para que elas ficassem mansinhas como a minha cadelinha terrier e  vivêssemos lado a lado, felizes e contentes. Se eu vivesse na cidade americana de Zanesville, estado do Ohio, onde mais de 50 animais perigosos andaram à solta, e se visse um leão ou um tigre à minha frente, também gostava que surgisse um polícia, ou alguém com uma arma, para matar o animal, antes que ele me atacasse.

No entanto, aquilo que, à primeira vista, parece uma ameaça de animais ferozes, foi, na verdade, mais uma vez, terror espalhado por uma mente humana doente, frustrada, perversa, paranóica, depressiva, eu sei lá.

Segundo a Reuters, Terry Thompson, o dono do zoo, mantinha os animais em más condições, chegando a alimentar os leões com carne de cavalos da sua propriedade que morriam de malnutrição. Os animais não estariam sequer habituados à presença humana, dado que Thompson não costumava receber visitas (...) Médicos veterinários que visitaram o local descreveram as condições do zoo como "deploráveis", diz a Reuters.

Ou seja, os tigres, leões, ursos, lobos, etc. não foram só vítimas da polícia que os abateu, mas, acima de tudo, de um ser humano que, um dia, vá-se lá saber porquê, se lhe meteu na cabeça ter um zoo privado!

Os animais do mundo existem pelas suas próprias razões. Não foram feitos para os humanos, assim como os negros não foram feitos para os brancos nem as mulheres foram criadas para os homens - Alice Walker

Quem é aqui feroz e perigoso?
As criaturas não pediram para ir para lá, não escolheram aquela vida e tenho a certeza de que preferiam, milhões de vezes, que as deixassem em paz, a viver no seu habitat natural.
O ser humano, por sua vez, não hesitou em pôr em perigo os seus semelhantes, ao soltar os animais, antes de se suicidar!

No meio de tanta tragédia, tento consolar-me com a ideia de que estes animais, depois de uma vida horrível, viveram algumas horas de liberdade, antes de serem abatidos. E havemos de nos encontrar no Paraíso. Porque, se no Paraíso de Deus, o leão convive com o lobo e o cordeiro, é mesmo para lá que eles vão!

20 de outubro de 2011

18 de outubro de 2011

Da nossa relação com os animais I

A história do leão Christian, lembrou-me de abordar um outro assunto: a crença de algumas pessoas, ao abandonar os seus animais, de que não lhes estão a fazer mal nenhum, pois estão a devolvê-los à Natureza, o lugar de onde eles vêem.

Nada de mais errado!

Os animais domésticos não fazem ideia de como é a da vida na Natureza. Qualquer mamífero, antes de atingir a sua independência, tem de passar por uma fase de aprendizagem, que, nalguns casos, é bem longa (os cães e os lobos ficam de 8 meses a um ano junto dos pais, incluídos na matilha/alcateia; os ursos vivem de dois a três anos com a mãe). Sem esses ensinamentos, vêem-se indefesos e praticamente incapazes de tratar da sua vida.


No caso do leão Christian, a sua preparação para a vida selvagem foi feita com muito cuidado. Teve, inclusive, de travar amizade com um leão mais velho, o que não foi nada fácil. Nos primeiros contactos, o outro leão reagia extremamente agressivo, com medo de que o mais jovem lhe fizesse concorrência. Mas ele era imprescindível, para que Christian aprendesse regras básicas, por isso, os humanos arriscaram pô-los frente a frente, não havia outra hipótese.

É um momento muito emocionante. O leão mais velho precipitou-se para cima de Christian, como se o quisesse desfazer. Felizmente, isso não aconteceu. O instinto de Christian salvou-o e ele logo se deitou de costas, num gesto de submissão. Mesmo assim, o outro não o largou, durante largos segundos, não queria que houvesse motivos para dúvida, de quem era o chefe. Passados esses momentos, os dois tornaram-se grandes amigos e, em mais uma lição que os animais nos dão, o mais velho não mais insistiu em espezinhar ou humilhar o mais novo (como muitos de nós gostam de fazer, em relação aos seus subordinados). Uma vez esclarecidos os respectivos papéis, a vida decorreu pacífica, em respeito mútuo.



Mas retornemos aos animais domésticos abandonados, "devolvidos à Natureza", nomeadamente, os cães, que são os que eu conheço melhor. Além da falta de aprendizagem, temos de ter em conta que a maior parte das raças caninas actuais não são o resultado da selecção natural, mas da intervenção humana. Caso contrário, nunca existiriam raças tão pequenas, como os chihuahua, terrier, ou teckel. Nem nunca existiriam raças de pelo encaracolado, como os caniche, ou outras, de pelo longo. Caso não usufruam do tratamento adequado, podem-se lá alojar parasitas (larvas), alimentando-se do cão vivo, originando feridas e doenças horríveis.



Sem a intervenção humana, o cão seria sempre mais ou menos do tamanho do lobo e teria um pelo curto e denso. Fomos nós que interviemos, somos nós que temos obrigação de tratar deles. Sem prejuízo para quem opte por não manter animais em sua casa. Maltratá-los e/ou abandoná-los é que não!

15 de outubro de 2011

Humildade

Aprendemos, desde pequenos, que devemos ser humildes. O culto da humildade está muito enraizado na nossa cultura e tradição religiosa. Cristo é visto como o símbolo máximo da humildade, ao ter sido crucificado para salvar a Humanidade.

Mas não usaremos nós um conceito deturpado de humildade? Devemos subjugar-nos perante os outros, em todas as circunstâncias? Devemos atender mais às necessidades dos outros, do que às nossas? Ter os outros em melhor conta, do que nós próprios? E onde fica a auto-estima, a consciência do nosso valor e das nossas qualidades?


Na verdade, só quem possui auto-estima e uma personalidade forte tem algo para dar aos outros. Cristo, no fundo, é o melhor exemplo disso. Um homem servil, com tendência para a subjugação e sem poder de decisão, nunca seria capaz de arrastar multidões. Mesmo alguém como São Francisco de Assis teve de irradiar carisma e ser resoluto para convencer tanta gente a seguir o seu exemplo.

O Jornal do Bispado de Hildesheim diz-nos que a humildade deve expressar-se em respeito mútuo e, não, em servilismo. Mas a verdade é que a Igreja nos tem ensinado a sermos servis, sem respeito nenhum pelas nossas próprias necessidades.

Vejamos a seguinte passagem da Carta de S. Paulo aos Filipenses (2, 3-4): Nada façais por espírito de partido ou por vanglória, mas, com humildade, considerai os outros superiores a vós mesmos, sem atender cada um a seus próprios interesses, mas aos dos outros.

Isto pouco tem a ver com respeito mútuo, que implica que nos encaremos ao mesmo nível. Contudo, é interessante verificar que, na versão alemã, há uma pequena diferença no texto. Mantém-se o considerai os outros superiores a vós mesmos, mas diz-se: sem atender cada um apenas a seus próprios interesses, mas também aos dos outros (Jeder achte nicht nur auf das eigene Wohl, sondern auch auf das der anderen). Duas palavras acrescentadas, que fazem toda a diferença.