Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

24 julho 2011

A Cruzada das Crianças



A minha última leitura de ficção foi um romance histórico em língua alemã, que não está traduzido em português. Resolvi, mesmo assim, referi-lo aqui, porque foca um tema pouco conhecido, a Cruzada das Crianças, um acontecimento envolvido em lendas, sendo difícil separar a realidade da ficção.

No ano de 1212, dois grupos de dezenas de milhares de crianças, um em França e outro na Alemanha, fizeram-se ao caminho, em direcção à Terra Santa, a fim de libertarem Jerusalém apenas com a força das suas preces, que iriam converter os infiéis!

As origens destes movimentos permanecem na penumbra, diz-se que várias crianças, na solidão do seu ofício de pastoras, foram abordadas por anjos, ou pelo próprio Cristo, que as predispuseram a iniciar a aventura, prometendo-lhes que, assim que chegassem ao Mar Mediterrâneo, este se abriria, como aconteceu a Moisés, na Bíblia, permitindo-lhes caminhar até à Terra Santa!

A Cruzada das Crianças, por Gustave Doré


Recordemos que, na Idade Média, havia muita pobreza e miséria, o povo analfabeto agarrava-se a todas as promessas de uma vida melhor. As crianças vindas de Colónia e outras partes da Alemanha, guiadas por um miúdo-profeta, que teria tido a visita de um desses enviados de Deus, aventuraram-se pelos Alpes, sem qualquer tipo de meios. Claro que a maior parte morreu de fome, exaustão, ou congelada, muitas delas caíram em precipícios.

Também é claro que o Mediterrâneo não se dividiu. Terá havido, então, tentativas de arranjar embarcações, que levassem as crianças que ainda resistiam até à Palestina. Os únicos marinheiros que se dispuseram a transportá-las de graça eram piratas sem escrúpulos, que as venderam  como escravas, em Alexandria.

Apesar do tema, o romance não me impressionou. Houve partes que me empolgaram, outras, que me desiludiram, pelas ingenuidade e facilidade na resolução de conflitos. Além disso, não me agradou que a autora responsabilizasse os franciscanos pela iniciação da Cruzada (seriam eles que estariam por trás das "aparições"), seguindo a tese de um historiador, Thomas Ritter, que ela, aliás, tem o cuidado de designar, num posfácio, como sendo polémica. Seguindo esta linha, há uma cena final, em que São Francisco de Assis nos é apresentado como um fanático sem escrúpulos, totalmente alheio à realidade, defendendo a justeza da iniciativa (mesmo depois de terem acontecido as desgraças). Enfim, não me pareceu verosímil.

2 comentários:

Bartolomeu disse...

Não ha meio de alguém inventar a tão desejada máquina que nos permita viajar no tempo, até ao passado e poder confirmar a veracidade destes relatos...
É que, a memória, a intuíção e a capacidade de fantasiar, não são suficientes.
;)

Cristina Torrão disse...

Sim, a máquina que nos permita viajar no tempo... ;)