Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

01 março 2011

"Pecados de mí padre"

Cinco colombianos encontram-se em Outubro de 2008, num hotel de Bogotá. Um deles é filho do homem que mandou assassinar os pais (só os pais, sem as mães) dos outros quatro, quando eram todos ainda crianças. Sebastián Marroquín pede desculpa pelo sofrimento que seu pai causou às famílias. É difícil para o telespectador estar naquela sala, fazer parte daquela reunião. Sente-se o constrangimento. Mas também a sede de perdão, por parte do filho do assassino, admira-se a sua coragem e a sua humildade. Os outros, conhecidos políticos colombianos, aceitam as desculpas, concordam em que é preciso travar a violência e contribuir para a paz.

Não se trata de um filme, a cena não tem nada de fictício, é real, a câmara foi tolerada naquele encontro por alguns momentos, a fim de ser feito o documentário. E o arquitecto Sebastián Marroquín, que vive na Argentina, foi baptizado com outro nome, na sua Colômbia natal. Mudou-o, quando se viu obrigado a fugir do país. O seu verdadeiro nome é Juan Pablo Escobar, filho de Pablo Escobar, o barão da droga colombiano, morto em 1993, tinha ele 16 anos. Os outros quatro homens são filhos de políticos assassinados a mando de Escobar, nos anos 80, quando declararam guerra ao barão da droga.


Pablo Escobar com o filho Juan Pablo, em 1980


Sebastián Marroquín tem dificuldades em viver com a "herança" que o pai, que chegou a ser o criminoso mais procurado do planeta, lhe deixou. Vê-se aflito para conciliar a imagem do pai carinhoso, que lhe satisfazia todos os desejos (a família nadava em dinheiro), com o criminoso, que não hesitava em mandar assassinar quem o incomodasse. A sua primeira reacção, ao saber da morte dele, foi declarar, a uma jornalista, num telefonema gravado, que iria tomar o seu lugar, continuar a sua "obra", vingando-se daqueles que o mataram.


Pablo Escobar com o filho Juan Pablo, turistas em Washington


Mas esta foi uma reacção a quente, diz ele hoje, quando tinha apenas 16 anos e vivia escondido num hotel de Bogotá, com a mãe e a irmã, protegidos pela polícia, enquanto a Colômbia inteira procurava pelo paradeiro de Escobar. Passados esses momentos de fúria, Sebastián Marroquín decidiu-se pela paz. O sentimento de culpa, porém, persiste. Levou-o a contactar os filhos dos dois conhecidos políticos colombianos, a fim de lhes pedir desculpa.

Nem todos responderam de imediato, afinal, alguns deles tinham apenas 7 anos, quando os pais foram assassinados a sangue frio. Num dos assassinatos, em pleno comício eleitoral para a Presidência da Colômbia, havia câmaras, as imagens existem. A 18 de Agosto de 1989, o candidato Luis Carlos Galán cai, talvez já morto, em cima do palanque, atingido por tiros de metralhadora. Gera-se o pânico. Com esforço, o seu corpo inanimado é metido num carro, a fim de ser transportado a um hospital, na tentativa desesperada de salvar o que já não pode ser salvo.


Sebastián Marroquín (Juan Pablo Escobar), hoje, arquitecto na Argentina


Ignorar o passado é ignorar uma parte de nós, é não assumir as responsabilidades, é varrer para debaixo do tapete. Sebastián Marroquín, além de consentir no documentário, arriscou viajar à Colômbia, onde a sua vida corre perigo. Porque há ainda muita gente que deseja vingar-se do pai, através dele. Outros têm medo das revelações que ele possa fazer. Mas Sebastián Marroquín tem a coragem de mostrar ao mundo que é diferente de Pablo Escobar, pois, nas suas próprias palavras: o caminho mais rápido e seguro para a paz passa pelo perdão e pela reconciliação. É preciso mais coragem para estabelecer a paz do que para fazer a guerra. Destruir, é fácil (tradução minha, do alemão).

É suposto os pais ensinarem-nos a viver. Muitas vezes, temos que aprender a viver, apesar deles.

Nota: O documentário foi apresentado no Canal Arte, no passado dia 23 de Fevereiro. Será repetido a 8 de Março, às 2:30 horas (serão 1:30 horas, em Portugal). Título, em francês: Les péchés de mon père.

3 comentários:

JoZe disse...

Gostei de ter conhecido Sebastián Marroquín e a sua nobreza de espírito.

Parabéns pelo excelente texto!

"Ignorar o passado é ignorar uma parte de nós".

antonio - o implume disse...

De alguma forma as vitimas do seu pai se podem ver aqui algum sentido de justiça e de esperança, o monstro não se reproduziu.

Gostei de ter conhecido este exemplo e do teu texto.

Cristina Torrão disse...

Obrigada aos dois :)