Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

30 julho 2012

Opinião D. Dinis

A Sara Barros escreveu a opinião, o Manuel Cardoso publicou e eu atrevo-me a transcrever alguns excertos:

Cristina Torrão dá-nos uma visão diferente deste monarca: ela tira-o do pedestal e atribui-lhe uma dimensão humana.

Assim, mais do que factos impessoais a autora dá especial destaque à esfera privada de D. Dinis: a relação conturbada com Isabel, tão ascética e tão pouco dada aos prazeres da vida, a relação com o irmão sempre a cobiçar-lhe o trono…

Isabel desce também um pouco do pedestal de Santa é retratada como uma mulher que apesar de tentar suportar tudo com penitência também sente ciúmes e se enfurece, especialmente quando vê que o filho não recebe aquilo que lhe devido…

Em suma trata-se de um romance histórico onde o lado humano é o mais valorizado e por isso nos prende às suas páginas. Não estamos perante figuras distantes que sintam coisas que nos sejam desconhecidas. Estamos perante invejas, pequenos e grandes ódios, amores, traições…

Ler uma opinião destas é muito gratificante, especialmente, agora, que não faço ideia de quando tornarei a publicar. Como já aqui disse, não pretendo tornar a publicar com a Ésquilo e ainda não encontrei uma editora para o meu novo original. Agradeço aos dois, do fundo do coração. Obrigada!


28 julho 2012

Chega-te a mim

e deixa-te estar


Eduardo Sá, psicanalista e professor de psicologia, colabora regularmente na imprensa e na rádio. Vivendo no estrangeiro, eu não o conhecia, até ter lido uma entrevista que ele deu à Os Meus Livros. E, finalmente, arranjei ocasião para ler este livro.

Apesar de se tratar de uma não-ficção (coletânea de crónicas publicadas na Notícias Magazine), a escrita de Eduardo Sá é muito metafórica, pelo que exige uma certa habituação. Mas, depois de nos embrenharmos na sua simbologia, ele põe-nos a refletir, deixando-nos com ideias sobre o que podemos mudar na nossa vida. Mesmo não se concordando com tudo o que Eduardo Sá nos diz, ele ajuda-nos a conhecermo-nos melhor e a entendermos certas reações, nossas e dos outros, que costumamos apelidar de inexplicáveis, ou "impulsivas". Mas, e como já o tenho dito, nada fazemos por acaso.

Gostaria de transcrever aqui inúmeras passagens, mas, para não ser exaustiva, limito-me a uma "pequena" seleção:

O cor-de-rosa e o azul-bebé são cores traiçoeiras (...) A prova de que a nossa infância não é toda a cor-de-rosa nem a azul-bebé é o trabalhão que ela nos dá a consertar pela vida fora.

Ninguém nos ensina nada sem que aprenda connosco.

Educam-nos para a falsidade e para a hipocrisia, como se educar fosse domesticarmos o que sentimos cá dentro.

Só quem não aceita as imperfeições humanas (começando pelas suas) é que não cresce. Só quem não reconhece a sua necessidade de crescer não aceita o futuro.

Se as famílias tradicionais fossem uma mãe e um pai sempre juntos, por dentro e por fora, então as famílias tradicionais... raramente existiriam. Primeiro, porque os pais juntos, por fora, não significava que estivessem juntos por dentro. Em segundo lugar, o pai e a mãe juntos nem sempre quis dizer que ambos dessem tempo aos filhos.

 A ilusão de que todos podem gostar de nós seduz (...) Mas empurra-nos para o desejo de sermos adorados, o que só sucede quando (...) nos sentimos mal-amados.





25 julho 2012

Como o cão e o gato

Costuma dizer-se que são "como o cão e o gato", quando duas pessoas não se dão uma com a outra. É verdade que os cães costumam atacar gatos. Na aldeia transmontana de onde o meu pai é natural e onde, antigamente, os animais andavam à solta, volta e meia juntava-se um grupo de cães para dar cabo de um gato. Muitos se perguntam porquê, mas tal ocorrência tem duas explicações bem simples:

1 - Os cães são, na sua natureza, predadores, com um instinto de caça muito forte (aliás, como os gatos) e, como animais sociais, conhecem a eficácia de caçar em grupo.

2 - Os cães costumam ser maiores e mais fortes do que os gatos. Cobardia? Não é conceito que conheçam, sabemos que na Natureza impera a lei do mais forte, como garante de sobrevivência (o que já não se aplica aos humanos). Um cão que resolvesse atacar um leão, ou um tigre, resolvia a sua fome de outra maneira, pelo simples facto de que não mais sentiria fome. E os próprios gatos também se contentam com ratitos, passarinhos, ou, na melhor das hipóteses, com coelhos ainda em fase de crescimento.

Mas a amizade entre um cão e um gato também é possível e muito mais frequente do que se possa pensar. Normalmente, basta que um deles seja ainda bebé, quando travam conhecimento. Um cão criado numa família humana, não tem grandes problemas com o aumentar da "matilha". Se os humanos trouxerem um gatinho para casa, é quase certo e sabido que o cão o adota. Estando bem integrado, os humanos já lhe mostraram que, quem pertence à família, não é presa. Há, inclusive, cadelas com um forte instinto maternal que adotam tudo o que lhes apareça pela frente, sejam gatinhos, coelhinhos e, mesmo, ouriços-cacheiros (conheço até o caso de uma cadela que adotou uma ninhada de raposas). Mas o contrário também acontece: um gato costuma aceitar um cachorrinho na sua família. Se forem os dois pequenos, ainda melhor, pois, ao cresceram juntos, tornam-se amigos inseparáveis.

Junto algumas fotografias, que recebi por email, que confirmam este tipo de amizade cão/gato. É preciso, no entanto, ter consciência de que elas não são o garante de que estas coisas funcionem. Tudo depende da educação do cão, isto é, do lugar que ele ocupa na família. Além disso, os humanos, como responsáveis pelo bicho, devem conhecer-lhe bem o carácter, o que, infelizmente, nem sempre acontece.





23 julho 2012

Lidar com a fama

O Pedro Correia, falava, a propósito da morte de Amy Winehouse, há um ano, da absoluta incapacidade de certas pessoas para lidarem com a fama. O mundo está cheio desses casos. Estando de fora, parece-nos absurdo, mas muitos de nós talvez também sucumbissem à fama planetária.

Era notória a dificuldade que Amy Winehouse tinha de atuar em público. A primeira vez que a vi (e ouvi falar dela), salvo erro, num dos MTV Awards, olhei espantada para aquela figura magra e hesitante. A impressão que me deu foi a de que estava ali perfeitamente deslocada, o que me levou a pensar que estivesse a fingir. Achei-a ridícula.

Depois, porém, ouvia-a na rádio e não era apenas a voz que me encantava, era o sentimento com que ela cantava. Há certas passagens, nas suas canções, uma certa inflexão de voz, que me põem com um nó na garganta. E, à medida que a conhecia, convencia-me de que não fingia. Amy devia ter um grande medo do palco, pânico mesmo, de não estar à altura, de fazer figura de parva (como acabava por fazer), o que indica uma grande falta de autoestima.

Sei que é polémica a assunção de que os pais são os culpados por coisas destas. Os próprios psicólogos não nos sabem dizer quanto do que somos é hereditário e quanto mal/bem nos fizeram os pais, ou as pessoas que nos criaram. E porque é que alguns de nós superam os seus traumas e outros não? É um tema deveras complicado, pois é certo que, ao nascer, já trazemos genes que definem, pelo menos, parte do nosso caráter. Mas também somos aquilo que fazem de nós. Há toda uma mistura de vivências e hereditariedade que torna difícil comparar casos, pelo que afirmações do estilo: “eu também sofri, mas dei a volta”, não levam a lado nenhum e estão longe de ajudar quem se encontra no fundo do poço. Algumas misturas (genes/educação/vivências) serão tão explosivas, que, praticamente, não darão hipóteses de superar aquilo que correu mal.

Não conheço a infância de Amy Winehouse. Mas, quando ela começou a adquirir fama planetária, a família dela pediu aos fãs que lhe não comprassem os discos, pois o dinheiro estragava-a. Este apelo caiu-me muito mal. Posso compreender que estivessem desesperados, mas escolheram o pior caminho. Foi o mesmo que dizer: “ela é boa, mas não lhe liguem, coitada, que lhe faz mal”, o que dá cabo da autoestima de qualquer um (ponham-se no lugar dela). Claro que o dinheiro facilita o acesso às drogas, mas, num caso destes, é um erro reduzir o problema ao facto de se ganhar muito. É só ver a ponta do icebergue. De resto, quem se quiser drogar e embebedar, fá-lo, tendo, ou não, dinheiro.

Quando ela morreu, o pai declarou que ela já não se drogava há mais de um ano e que não bebia há, pelo menos, três semanas. Passado uns dias, foi à casa dela, defronte da qual se encontravam muitos fãs, e começou a distribuir t-shirts. O que mais me impressionou foi que me parecia agradar-lhe ser o centro das atenções. Por essa altura, a mãe veio desmentir as afirmações do marido, dizendo que a Amy não parara de se drogar e de beber, que o corpo dela estava uma ruína e que os médicos teriam dito que, se não modificasse o estilo de vida, seria, em breve, tarde demais. Como veio a ser.

O pai de Amy Winehouse não seria o primeiro a aproveitar-se de um/a filho/a para brilhar. É algo que nos choca e, por isso, fazemos de conta que coisas dessas não existem. E, no entanto, os pais que usam as suas crianças para obterem a atenção que sempre lhes faltou é mais frequente do que queremos admitir.

A caricatura de Amy Winehouse é da autoria de Fernandes

21 julho 2012

Resultado do passatempo

Apesar de as visitas aqui ao blogue terem aumentado, nos últimos tempos, e de ter havido um certo entusiasmo nos dois primeiros dias, as participações no passatempo esmoreceram, nos restantes, e não chegaram às 16, o que me impede de premiar este número. Resta-me agradecer a todos os participantes e nomear, neste caso, uma vencedora, baseada no pressuposto publicado: "cada email vai ser numerado por ordem de chegada. O email vencedor será o nº 16, que é o dia do meu aniversário. Se houver menos de 16 participantes, será o nº 6".


E o email nº 6, com as respostas corretas, é o da Isabel Magalhães, enviado a 13.07, às 09:47.

Parabéns, Isabel, e boas leituras!




20 julho 2012

Alma Rebelde


O romance de estreia de Carla M. Soares, situado em meados do século XIX, conta-nos a história de dois jovens que se curvam à vontade das suas famílias, lembrando-nos que a liberdade pessoal é algo relativamente recente. De um lado, a família nobre, mas arruinada; do outro, a rica, mas sem pergaminhos. Em casos destes, os chefes das respetivas faziam negócios de casamento, dispondo das vidas dos filhos.

Joana e Santiago são assim empurrados para uma união que nenhum deles deseja. Porém, ao travarem conhecimento, a escassas semanas das bodas, agradam-se um do outro. O problema é que esta nova situação é, para eles, tão inesperada, que demora algum tempo até perceberem que o casamento, de negócio desprezível, passa a união desejada.

Tudo parece conjugar-se para um final sem surpresas, do género "casaram e viveram felizes para sempre". Mas, na reta final, Carla M. Soares introduz uma viragem inesperada no enredo, sabendo dosear muito bem o suspense criado.

De leitura agradável, este livro adequa-se a tardes descontraídas de Verão. Porque, às vezes, sabe bem ser antiquado. É como ver aqueles filmes baseados nos livros de Jane Austen. E comover-se. E sonhar...

18 julho 2012

Uma história de elefantes

A "David Sheldrick Wildlife Trust", fundada nos anos 1970, no Quénia, dedica-se à recuperação de elefantes e rinocerontes órfãos. No passado dia 9, foi transmitida, na estação televisiva ARD, uma reportagem sobre um elefante fêmea, a quem deram o nome de Dida.

Dida foi encontrada, ainda bebé, junto à mãe moribunda, ferida de morte por caçadores em busca de marfim. A "David Sheldrick Wildlife Trust" resgatou-a, mas Dida estava tão traumatizada, que precisou de muito tempo para ganhar confiança nos seus tratadores humanos.

Foi comovente ver a tristeza do elefantezinho, que perdurou semanas, provando, mais uma vez, que os animais têm sentimentos e sofrem, mas também me impressionou a maneira como os elefantes mais velhos, ainda residentes da estação de resgate, tentavam consolar a pequena Dida, a par dos tratadores.

 
















Dida recuperou a sua alegria, estabelecendo uma forte relação com o seu tratador.


Mas o trabalho só está completo quando estes elefantes são devolvidos à vida selvagem, para isso é que são salvos. O programa passa por uma fase de adaptação, no Parque Nacional de Tsavo, em que eles entram, durante o dia, em contacto com elefantes selvagens. E, mais uma vez, foi impressionante ver como a manada logo os aceita, os protege e educa.


Depois de ter completado os dois anos, e apesar de ainda ser “criança”, Dida sabia que se aproximava a hora da partida. Quedava-se, porém, indecisa, tanto olhava para o local onde vivia com os humanos e onde se recolhia à noite, como para uma manada de elefantes selvagens que andava ali por perto. Os tratadores deixaram-na sozinha para decidir, não a queriam pôr sob pressão, com a sua própria tristeza. E ela lá cumpriu o seu destino, sem cenas melodramáticas.

Amar também é saber deixar ir.



16 julho 2012

Vêm aí os Piratas


São a novidade no panorama partidário alemão. No início, ninguém os levou a sério, pois formaram-se tendo, como único objetivo, a liberdade total na internet: tudo deve poder ser copiado, transferido e partilhado. Quando, em 2011, conseguiram lugares no parlamento regional de Berlim, muita gente se perguntou como é que um partido com tão pouca consistência e, praticamente, sem organização, podia ir tão longe.

Os próprios Piratas se surpreenderam e tentaram desenvolver algo que se parecesse com um programa. À liberdade total na net, juntaram, por exemplo, a legalização de todas as drogas e transportes públicos gratuitos. Como, porém, ainda lhes falta consistência, no seu site, qualquer pessoa, mesmo anónimos, pode dar ideias, colaborando no aperfeiçoamento do partido.

A falta de alicerces não impediu que, entretanto, conseguissem votações entre os 7% e o 9% noutras eleições regionais, que lhes proporcionaram lugares parlamentares em mais três Länder: Renânia do Norte-Vestefália, Saarland e Schleswig-Holstein.

Sinais dos tempos? Os Piratas vão-se organizando internacionalmente, também em Portugal existe o Movimento Partido Pirata Português, à procura das 7.500 assinaturas necessárias para a fundação oficial do partido, o PPP.

Qualquer dia, somos todos piratas…




14 julho 2012

Guimarães e Lisboa



É lindíssima, a moeda de 2 euros dedicada à "Guimarães 2012 - Capital Europeia da Cultura". Porém, e sem querer desprestigiar o excelente trabalho de José de Guimarães (também se chama Guimarães, que giro), confesso que a representação de D. Afonso Henriques me fez lembrar as figuras que enfeitam a estação de Metro do Martim Moniz, em Lisboa.


As fotografias foram tiradas em Novembro de 2007. Depois de termos passado duas ou três vezes por esta estação, não resistimos a parar, para fazer o registo das imagens. Estivemos cerca de 20 minutos naquilo, deixando passar duas ou três oportunidades de continuar a viagem. Enfim, de férias, há que arranjar tempo para coisas assim. Os restantes utentes do Metro, ou nos olhavam surpreendidos, ou sorriam, condescendentes, como quem diz: "Estes turistas..." (É que eu, com o meu marido ao lado, também passo por estrangeira. Já assisti, várias vezes, a expressões estupefactas, quando, por qualquer motivo, falo português com alguém).





D. Afonso Henriques
(aspeto curioso: é o único guerreiro com um olho; "quem tem olho, é rei", pois...)








Cruzados (embora se faça a habitual confusão entre cruzados e Templários. Mas, para o caso, não é relevante)





D. João Peculiar (arcebispo de Braga) e D. Pedro Pitões (bispo do Porto)








O herói, Martim Moniz, criado em consonância com o cartaz que previne sobre o perigo de se ficar entalado na porta do Metro. Genial!




 
E nem se esqueceram de homenagear os cavalos.
Bonito!


12 julho 2012

Passatempo X


Decidi pôr à disposição mais um exemplar de Afonso Henriques, o Homem, para o/a vencedor/a deste passatempo. Para participarem, respondam às duas perguntas, que se seguem ao excerto do meu novo original, que continua à procura de uma editora (já que resolvi não mais publicar na Ésquilo).
Aqui vai o excerto:

Um dos cavaleiros deixou claro que D. Afonso Henriques precisava de todos os homens do condado. Os mouros tinham, há coisa de dois anos, destruído um castelo que o infante mandara construir, num sítio chamado Leiria, chacinando 240 soldados e cavaleiros. D. Afonso Henriques tencionava vingar-se, levando a cabo um fossado de proporções nunca vistas, penetrando bem fundo nas terras dos pagãos. O sacrifício seria recompensado, haveriam de regressar cheios de despojos: ouros, sedas e brocados, além de animais e escravos mouros.

Iniciou-se uma euforia nunca vista. Ao receio inicial, seguiu-se o entusiasmo pelo empreendimento heróico. Os cavaleiros do príncipe e os fidalgos da região exortavam, pelas paróquias, à valentia dos homens da sua terra, que, ao lado de D. Afonso Henriques, haveriam de aniquilar os mouros, gente de uma crueldade sem fim.
Os ferreiros trabalhavam noite e dia nas suas forjas, aprontando armas, principalmente lanças e elmos, algumas pagas com a prata dos cavaleiros de D. Afonso Henriques, outras, pelos próprios lavradores. As mulheres confecionavam gibões de guerra para os seus homens, também conhecidos como perpontos, uma vestimenta com várias camadas de linho (chegavam a ser sete ou oito), para que melhor pudessem defender o corpo das armas do inimigo. Só os guerreiros da alta nobreza se podiam dar ao luxo de possuir lorigas de malha.
Enquanto eles se juntavam nos adros das igrejas e nos paços dos nobres, a fim de ouvirem os cavaleiros e os barões da sua terra, elas desfaziam-se em rezas, sacrifícios e promessas. Não era só o receio de perderem os maridos, pais e filhos. Esperava-as um tempo de trabalhos a dobrar, durante a ausência deles. Os problemas já se faziam notar, só com dificuldade se havia semeado o linho e se procedia agora à tosquia das ovelhas e à reparação de moinhos e engenhos, estragados pelas águas do Inverno. As mulheres procuravam consolo e apoio junto do velho pároco, que lhes assegurava que, com a fé necessária, tudo haveria de correr bem.

E, agora, as perguntas:

1 - Que importante batalha se deu na sequência deste "fossado de proporções nunca vistas"?
2 - Qual a data dessa batalha?

 Podem encontrar as respostas aqui e, como informação adicional, revelo que, brevemente, se passará mais um ano sobre esse acontecimento.

Enviem um email para andancas@t-online.de com as respostas. O apuramento do/a vencedor/a vai ser efetuado da seguinte forma:
Cada email vai ser numerado por ordem de chegada. O email vencedor será o nº 16, que é o dia do meu aniversário. Se houver menos de 16 participantes, será o nº 6 e, se forem ainda menos, será o nº 1. Dando-se o caso de haver algumas dezenas de participações, ponderarei a hipótese de nomear dois vencedores, com um número a escolher posteriormente.

O passatempo encerrará às 23:59 de 20 de Julho.

Sugestão: já ter o livro, não é razão para não participarem, pois podem sempre oferecê-lo. Eu escrevo a dedicatória em nome de quem quiserem ;)

Boa sorte!

11 julho 2012

Naquele Tempo (5)


"Apesar de o Direito ser, decerto, a matéria mais cultivada na Universidade portuguesa, os seus professores não alcançaram nunca competência suficiente (ou suficientemente reconhecida) para concorrer com os mestres de Salamanca ou de Bolonha. D. Dinis e D. João I não se contentaram com a consulta dos doutores portugueses. Para questões mais importantes recorreram ambos aos da Universidade italiana, como aconteceu, de resto, com particulares num processo especialmente complicado, em 1408.
Não admira, portanto, que nas outras matérias a debilidade da Universidade portuguesa fosse ainda maior. Esta inferioridade explica, e de certa maneira comprova-se também, pelo facto de os estudantes portugueses, sobretudo aqueles que depois desempenharam papel intelectual, político ou eclesiástico de relevo, terem frequentado preferentemente universidades estrangeiras, sobretudo Salamanca e Bolonha, mas também Paris e Oxford (os franciscanos, pelo menos) e muitas outras universidades italianas."

(Página 207, A universidade portuguesa e as universidades europeias)

07 julho 2012

Pré-Publicação #11


Naquele seu sono tranquilo, ela sonhava com um futuro risonho. Por isso, ao contrário do que lhe era habitual, apercebeu-se tarde da balbúrdia. No início, pensou que aqueles sons de cavalos e cães fizessem parte do seu sonho. De repente, porém, acordou, com o coração aos pulos e a certeza de que a sua vida estava ameaçada. Cães ladravam e cavalos resfolegavam, entremeados por vozes de homens, que se apeavam das montadas.
Levantou-se de um salto, no escuro do moinho, cobriu-se com um manto e saltou para trás do engenho, agachando-se, num terror indizível.
Os homens aproximavam-se da porta. Talvez a trave que servia de tranca os impedisse de entrar…
Mas logo se lhe gelou o sangue nas veias, quando eles começaram, à machadada, a desfazer aquela que, até ali, representara uma barreira segura.
Ela tremia e rezava.
Desfeita a porta, três homens entraram no abrigo. Um deles segurava um archote e, depois de olharem em volta, soltaram dois canzarrões, que não tiveram dificuldade em dar com o esconderijo dela. Com o manto pela cabeça, ela protegia-se o melhor que podia do ataque dos animais acirrados. Um fixou-se no seu antebraço, o outro na canela. Ela mantinha-se encolhida e os tecidos do manto e da veste protegiam-na, num primeiro momento. Não tardou, porém, a sentir as mandíbulas na carne.
Pensava que a deixavam morrer, desfeita pelos cães, quando dois dos homens vieram, enfim, segurar os animais. O terceiro aproximou-se dela e, por mais que ela tentasse resistir-lhe, ele conseguiu descobrir-lhe a cabeça. Agarrou-a pelos cabelos e vociferou:
- Desaparece daqui, rameira, que andas a ensombrar a vida da minha filha!

05 julho 2012

O Teu Rosto Será o Último


João Ricardo Pedro balança, com habilidade, entre o humor e a tragédia, pelo que o romance se lê, às vezes, com um sorriso nos lábios, outras vezes, com um nó na garganta. No seu essencial, é um livro sobre as partidas que a vida nos prega, das quais saímos amputados, seja fisica, seja psicologicamente. E, muitas vezes, a amputação é voluntária. Não vou, contudo, aprofundar este tema, pois corria o risco de dizer demais e não quero tirar o prazer a quem tencione embarcar nesta leitura.

Mas (e há quase sempre um mas) no texto da contra-capa refere-se a sua "estrutura exemplar" e, quanto a isso, tenho as minhas dúvidas. Está escrito em "episódios aparentemente autónomos" e o próprio autor teve já ocasião de explicar que as cerca de duzentas páginas resultam de uma seleção de mais de mil. Não ponho em causa a qualidade da escrita em cada uma das páginas, mas, sim, a sua sequência e, muitas vezes, a sua utilidade (se é que se pode usar esta palavra, neste contexto). Na verdade, há um ou dois capítulos que poderiam ser suprimidos, sem qualquer prejuízo para o enredo (o que não quer dizer que não se leiam com prazer). Embora haja um fio de ligação entre eles, pode-se ler cada capítulo independentemente dos outros, como se de uma coletânea de contos se tratasse. E, na minha opinião, um romance deve ter uma outra estrutura. Gostos, admito.

De qualquer maneira, João Ricardo Pedro, vencedor do Prémio Leya 2011, é um exímio contador de episódios da vida. Fico curiosa quanto a obras futuras.

Nota: posteriormente publiquei uma adenda a esta opinião.

03 julho 2012

Compadrio "legalizado"


Que, em Portugal, o compadrio é prática corrente, já eu sabia. Julgava, no entanto, que se evitasse fazer a sua apologia. Por isso, muito me espantou a coluna “Booktailoring – Less is more (Novos conselhos para chegar aos editores. Facilite desde logo)”, da autoria de Paulo Ferreira, na edição de Junho da revista Ler.

“Continuando com as sugestões de como um autor pode ver o seu livro publicado”, Paulo Ferreira chama a atenção para a importância da primeira impressão, referindo a escolha da fonte e dando sugestões para a elaboração do texto da sinopse. Até aqui, tudo bem. Não fosse uma frasezinha, entre parênteses, à laia de nota: “seria muito bom que a obra pudesse ser recomendada ao editor por alguém que lhe seja próximo”!

Ora, muito obrigada por esta preciosa informação! Claro que, tendo conhecimentos desse género, qualquer autor os aciona. Mas… e quem não os tem? Sempre pensei que colunas deste tipo, em revistas especializadas, eram escritas, precisamente, para aqueles que não têm a quem recorrer, vendo-se obrigados a convencer os editores baseados, apenas, no seu talento e, não, nos contactos de que dispõem.

Por outras palavras: o talento não chega, as cunhas é que dão o jeitinho!


01 julho 2012

O Português levou 8 séculos a construir,

não será por decreto que o irão destruir.

Se o Português levou 8 séculos a construir, os nossos antepassados falavam uma língua incompleta, uma língua em construção, em obras. D. Dinis, Gil Vicente, Camões, Camilo, Eça... Estavam eles conscientes disso? Pode chamar-se obra-prima àquela que foi escrita numa língua em construção? Sabiam Gil Vicente e Camões que ainda tinham de passar séculos, até que o Português estivesse plenamente construído?

Esta frase, muito usada pelos oponentes do Acordo Ortográfico, é, na minha opinião, infeliz, porque encerra, em si, uma contradição. Por um lado, admite que a língua portuguesa é o resultado de uma evolução; por outro, dita o seu bloqueio. Mais: pressupõe que o Português atingiu, enfim, a sua perfeição! Com que direito? É o Português que falamos e escrevemos hoje melhor do que o que falava e escrevia Camões? É o Português que falamos e escrevemos hoje aquele que os nossos sucessores falarão e escreverão daqui a 500 anos?

Nenhum decreto destrói o Português, apenas lhe introduz alterações em aspetos considerados obsoletos. A questão não me repugna, por isso a aceito. Não por ser de natureza submissa - como caracterizam os oponentes do Acordo aqueles que o aceitam -, mas pura e simplesmente porque a questão não me repugna. A língua tem uma origem convencional. Convencionou-se chamar "mesa" à "mesa" e "cadeira" à "cadeira". Em alemão, convencionou-se chamar "Tisch" à "mesa" e "Stuhl" à "cadeira". Depois de anos de evolução, claro. Mas considerar que essa evolução chegou ao fim é tão absurdo como considerar que "actor" e "ator" se pronunciam de maneira diferente.

Muitos opositores do Acordo alegam, ainda, que, na palavra "ator" não se vislumbra a sua raiz. E em quantas palavras portuguesas se vislumbra a sua raiz? Se tudo fosse assim tão claro, não havia dúvidas quanto à origem da palavra "fado", por exemplo. A maior parte das palavras está tão modificada, devido à evolução da língua, que não é possível descortinar a sua raiz.

Os opositores costumam também dizer que querem continuar a escrever como aprenderam. E o que dirão os seus filhos, daqui a vinte anos, os filhos que estão a aprender a escrever usando as regras do Acordo Ortográfico?