Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

28 de janeiro de 2012

O Ano de Karl May

Tinha eu, em fins do ano passado, falado do escritor alemão Karl May e trocado comentários interessantes com a Teresa, sem saber ainda que 2012 é o ano de Karl May. Pelo menos, assim decretou a Karl-May-Gesellschaft, a fim de assinalar o centenário da morte do escritor com toda uma série de iniciativas e eventos.


Karl May (1842/1912) é objecto de culto na Alemanha. Escreveu mais de 100 livros de aventuras, situados no Oeste Americano, no Oriente, na China e na América do Sul. Muitos destes livros foram adaptados ao cinema, ao teatro e à banda desenhada. Karl May escreveu ainda poesia e compôs música.

A sua vida, no entanto, não decorreu sempre pacífica. Antes de conhecer a fama, foi algumas vezes  preso, por roubos e vigarice (seja lá o que isto quer dizer). No total, passou sete anos na prisão, pelo que teve de desistir da sua profissão de professor e errou pelo país, como um vagabundo. Só depois de arranjar emprego numa editora de Dresden, em 1875, escrevendo histórias de aventuras para revistas, a sua vida se modificou. A partir de 1892, os seus escritos começaram a ser editados em livro, fazendo dele um homem rico.


Karl May, no entanto, vendia aquelas histórias como verdadeiras, ou seja, alegava conhecer todos aqueles lugares e ter vivido muitas daquelas aventuras. Na verdade, só depois de enriquecer, ele teve ocasião de fazer essas viagens e a sua imagem ficou bastante danificada, quando os seus fãs tomaram conhecimento.

No post acima referido, a Teresa chamou-me a atenção para o facto de Hitler ter sido um grande fã de Karl May e remeteu-me para a Wikipedia:

Adolf Hitler was an admirer, who noted that the novels "overwhelmed" him as a boy, going as far as to ensure "a noticeable decline" in his school grades.
Hitler later recommended the books to his generals and had special editions distributed to soldiers at the front, praising Winnetou
(chefe índio, um dos personagens dos seus livros) as an example of "tactical finesse and circumspection", though some note that the latter claims of using the books as military guidance are not substantiated.

Porém, a mesma página chama a atenção para o seguinte:

In his admiration Hitler ignored May's Christian and humanitarian approach and views completely, not mentioning his – in some novels – relatively sympathetic description of Jews and persons of non-white race.


E é verdade que as personagens de Karl May revelam tolerância, respeitando as outras religiões. Há mesmo uma aproximação ao islamismo, no chamado "Ciclo Oriental" (Orient Zyklus), pese embora uma certa tendência moralista, aliás comum no século XIX, que leva o escritor a terminar alguns romances com a conversão de pessoas de outros credos ao Cristianismo.

Na Wook, só encontrei livros de Karl May em inglês, ou castelhano.


27 de janeiro de 2012

Qual o livro mais maldito?

O blogue da Livraria Pó dos Livros iniciou uma votação para eleger o livro mais maldito. Há dez candidatos, que vão desde o Mein Kampf, à Bíblia, passando pela Autobiografia Política de Cavaco Silva.

25 de janeiro de 2012

Livros Esgotados #2

Imagem daqui

Um link no Blogtailors aumentou consideravelmente as visitas a este post e resolvi responder aos comentários sob esta forma.

Um/a comentador/a que resolveu não se identificar (já agora, digo que, ao contrário de outros meus colegas da blogosfera, é algo que não me repugna, desde que a pessoa não se ponha com insultos) começa por dizer que uma livraria média ou grande dá sempre a possibilidade de encomendar. Parece, no entanto, não ser bem assim. Vários comentadores a este outro post partilharam as suas experiências e chegou-se à conclusão de que depende muito das livrarias (grandes e pequenas) e, acima de tudo, de quem atende os clientes! Também o Ângelo Marques referiu aqui a falta de tacto dos vendedores.

O mesmo comentador anónimo fez ainda afirmações muito interessantes: se a loja ou cadeia de lojas não trabalhar com a editora, fica melhor dizer "esgotado no editor; não podemos encomendar" do que dizer "somos uma livraria mas não temos acesso a todos os livros". E ainda: uma livraria pequena foge a sugerir a encomenda porque não consegue gerar encomendas adicionais à editora para não ter de pagar portes, que de outra forma trariam prejuízo à venda.

Eu lamento que a sobrevivência de algumas livrarias pequenas seja difícil, até porque, normalmente, o leitor encontra aí  (ou devia encontrar) um atendimento mais personalizado. Mas chegamos, assim, ao absurdo desta situação: encomendar livros que as outras livrarias dizem estarem esgotados não seria uma forma de fidelizar um cliente? Na minha opinião, as livrarias pequenas deviam apostar precisamente neste tipo de "favores".

Depois de dar estas informações, o comentador anónimo diz: é tão simples aprender estas coisas simples, em vez de criar "fúrias" (numa alusão ao modo como eu inicio o post). Desculpe-me, mas, por mais que eu tente entender as dificuldades económicas das livrarias pequenas, ou a vergonha de dizerem que não têm acesso ao livro xis, eu não posso aceitar que elas prejudiquem precisamente os escritores menos conhecidos, que não são editados pelos grandes grupos editoriais. Um autor nestas condições tem, desde logo, dificuldades em ser notado, pois não é objecto de grandes campanhas de marketing. Se, ainda por cima, as livrarias dizem que o seu livro está esgotado, desencorajando os leitores de o continuarem a procurar, é de gerir "fúria" em qualquer um! Nós, os autores congratulamo-nos com cada pessoa que se interesse pelo livro e o compre. Os livros saem-nos "do corpo", é algo em que investimos centenas, ou mesmo milhares, de horas, às vezes, à custa de muito sacrifício! Ver o nosso trabalho assim desprezado dói muito! E enfurece! Um livro não é apenas um objecto de papel, com páginas imprimidas; um livro é sangue, suor e lágrimas; um livro é disciplina e concentração, é investimento de energia, é o abdicar de coisas de que gostamos de fazer, a fim de ter tempo para ele.

As livrarias acabam, assim, por alimentar o sistema perverso, em que os editores (os grandes) é que decidem quais escritores devem vender muitos livros, sem, praticamente, olharem à qualidade. Sob este sistema, a J. K. Rowling nunca teria chegado com o seu Harry Potter onde chegou, se tomarmos em conta que a edição do seu primeiro livro (numa editora, à altura, pequena) se limitou a 500 exemplares! Presumo que o sistema inglês seja parecido com o alemão, em que qualquer livro se pode encomendar em qualquer livraria, independentemente do seu tamanho. É o vendedor/livreiro que nos diz logo: «não temos. Quer encomendar?». Porque, aqui, as livrarias gostam de vender livros e de fidelizar clientes! E, no dia seguinte, dão-nos o livro para as mãos.

24 de janeiro de 2012

Naquele Tempo (2)

Ou: Aspectos menos conhecidos da Idade Média



«Não deixa de ser significativo que o imaginário da poesia de amor explore de preferência a situação de infracção (cultivando o desejo de adultério e ao mesmo tempo apresentando a quebra do segredo amoroso como o pior dos crimes do amante), e que o imaginário da cantiga de amigo ignore por completo os preceitos da moral oficial, que proíbe as relações pré e extraconjugais.
(...)
As cantigas de amigo (...) podem reflectir certos costumes de um grupo humano regido por preceitos menos repressivos, constituído pelos excluídos do casamento solene e estável, mas nem por isso necessariamente impedidos da vida sexual, como seriam os filhos segundos, as raparigas sem dote, os bastardos e bastardas, os cavaleiros sem terra, os jograis, os escudeiros, as soldadeiras, as barregãs...»
(Página 19, Significado erótico dos géneros poéticos)

«O celibato eclesiástico só se impõe como norma geral no século XII (...) e continua a ser esquecido com grande frequência até ao século XVI. O divórcio é previsto e autorizado nos costumes municipais e estes continuam a ser copiados e praticados, sobretudo nas terras do interior, pelo menos até ao século XIV, com a tolerância das autoridades eclesiásticas. A barregania foi provavelmente um costume quase constante na alta Idade Média para os jovens nobres antes do casamento; confundia-se frequentemente com o sacramento de facto em todas as classes sociais, e só foi propriamente combatida quando implicava uniões de cônjuges de condição social desigual e quando envolvia clérigos (depois do século XII) e homens casados legitimamente.»
(Páginas 20/21, A moral clerical e a sua evolução)

20 de janeiro de 2012

Entrevista (4)

A Joana Dias já publicou a 2ª parte da conversa/entrevista, resultante da troca de emails entre mim e ela. Aqui, um extracto:

- Alguma vez sentiu aquele assomo da página em branco ou é algo que flui naturalmente?
Até agora, tem fluido tudo muito naturalmente. Um romance escreve-se aos poucos, cena a cena. Quando começo a escrever uma cena, já sei como vai acabar, mas os pormenores surgem na altura da escrita. Às vezes, é difícil fazer a ponte de ligação entre as cenas. E o romance histórico, como eu o escrevo, tem ainda a dificuldade de se apresentarem os factos de forma sucinta, sem se tornarem maçadores. Tenho de fazer uma selecção muito precisa daquilo que vale a pena ser dito, prescindindo daquilo que, apesar de ser interessante, pode começar a maçar. Nem sempre fico satisfeita com o resultado. Principalmente, no romance do D. Dinis, tive problemas, devido à quantidade de leis, reformas e medidas que o Rei Lavrador decretou e pôs em prática.

Bom demais para Tugas?

Lindíssima, esta ilustração, adoro!

A procura da identidade e das raízes da família é o tema principal de "Portugal", o novo livro de banda-desenhada de Cyril Pedrosa, francês luso-descendente, hoje lançado em França.

Cyril Pedrosa, de 38 anos, nasceu em Poitiers e não sabe falar português. Mas interessa-se pelas suas raízes e o seu livro deixa-me muito curiosa, pois trata-se de uma visão de Portugal por alguém vindo "de fora". As editoras portuguesas devem estar ansiosas por lhe deitarem as mãos...

O tanas!

"Portugal" tem "edição em estudo" por parte da ASA, mas não faz, por enquanto, parte da programação da editora portuguesa.

O livro "Três Sombras", imediatamente anterior ao título agora lançado, tem edição brasileira, da Quadradinhos na Cia., e foi contratado para Portugal pela Polvo, que entretanto não avançou com a edição.

Não tenho palavras! Mas o que pensam as editoras portuguesas? Que ele é bom demais para o nosso país?

Pois, e talvez seja mesmo!

Via Dias Imperfeitos

18 de janeiro de 2012

Entrevista (3)

Por vezes, há coincidências destas. Depois de, há dois dias, Iceman ter exprimido a sua opinião sobre D. Dinis, a quem chamaram o Lavrador, a Joana Dias do Páginas com Memória publicou hoje o resultado da sua troca de emails comigo. Na primeira parte desta conversa/entrevista, fala-se, entre outros temas, do meu fascínio pela Idade Média, da minha opinião pessoal sobre as figuras dos meus romances, se alguma delas me decepcionou do ponto de vista humano e, ainda, de qual dos livros me deu mais prazer escrever.

Aconteceu na Holanda


Um homem despiu-se, atirou-se para a água gelada de um canal e salvou um gatinho de ser afogado.

Via Tempo Contado

Opinião D. Dinis (VI)

Desta vez, é o Iceman que nos dá a sua opinião, no nlivros:

(...) a autora é mais uma vez exímia na forma como preenche com ficção os factos Históricos, “pegando” no que se sabe da época e dos personagens, vai tecendo um trama magnífico que se transforma num romance histórico brilhante, de uma excelente qualidade literária.

16 de janeiro de 2012

Livros Esgotados

Imagem vista aqui

Em meados do ano passado, descarreguei aqui e aqui a minha fúria, ao saber que algumas livrarias davam os meus livros por esgotados, sem o estarem. Entretanto, sei que isso é prática mais ou menos comum, em certas livrarias, não se entendendo como é que o sector livreiro, nesse aspecto, se aniquila a si próprio. Parece-me mesmo obsceno.

Compreendo que, ao ritmo a que os livros são publicados, as livrarias lutem por falta de espaço e se livrem daqueles que vendem menos. Mas porque não dão a possibilidade ao cliente de encomendar o livro? Com as tecnologias actuais, isso poderá ser tudo, menos difícil. Mas, mesmo que não se queiram dar a esse trabalho, que digam algo como: sinto muito, mas já não negociamos esse livro! É bem diferente de dizer que está esgotado!

Desenterro este assunto, depois de ler um post da editora Maria do Rosário Pedreira. A propósito de a Maçonaria ser o tema do momento, ela lembrou-se de um ensaio que publicou há tempos: Na Sombra - Breve História das Sociedades Secretas, de John Lawrence Reynolds. Mas o que me chamou a atenção foi a frase: e, mesmo que lhe digam que está esgotado – os livros nunca ficam tanto tempo nas livrarias –, insista e encomende.

Parecem ser as palavras de ordem: insistir e encomendar! É isso mesmo que aconselho a todos os que procurem um livro que já não se encontra nas livrarias. Porque os livros que não se vendem acabam por ser destruídos. Mesmo que haja gente a procurá-los!

Digam lá se não é de doidos!

Nota (adicionada posteriormente): respondi aos comentários aqui.

15 de janeiro de 2012

Blogs do ano 2011

Começou a votação para escolher os blogs (ou blogues) do ano 2011, no Aventar.

Clique aqui para votar

A representatividade destas votações é sempre discutível, até porque não vão a votos todos os blogues que existem. Chamei a atenção, por exemplo, para o facto de haver a categoria Livros/Literatura/Poesia, mas ficarem de fora os blogues que se ocupam de Crítica/Opinião Literária, apesar de os seus autores, como grandes amantes e divulgadores de livros, o merecerem plenamente. Não fui a única a fazer propostas deste género e João José Cardoso do Aventar declarou: «as propostas de novas categorias, ou de dividir outras, são em muitos casos sensatas. Sucede que inicialmente não prevíamos tanto sucesso para esta iniciativa (sobretudo junto de blogues que francamente no Aventar desconhecíamos), e agora torna-se complicado mudar as regras a meio do jogo, o que pode prejudicar alguns concorrentes. Fica o aviso dirigido a quem para o ano queira ter a mesma iniciativa.»

Realmente, deve dar uma trabalheira a organizar tal e eu tomei conhecimento da iniciativa já quase no fim do prazo de elaboração das listas. (Nota: encontrar os comentários com a minha proposta e a resposta de João José Cardoso é tarefa morosa, numa selva de mais de 280 comentários).

De qualquer maneira, ainda fui a tempo de inscrever o Andanças Medievais na categoria de História e o Em 2711 já lá estava, em Actualidade Política (colectivos). Quem quiser votar nestes, ou noutros blogues, só tem de clicar no link.

13 de janeiro de 2012

Naquele Tempo (1)

Andei eu aqui a elogiar Robert Fossier, que escreveu tão bom livro sobre a Idade Média (o que aliás reitero), mas, afinal, temos um autor/historiador nacional que é ainda melhor!


O Prof. José Mattoso é um especialista de qualidade indiscutível. Depois de ler, de sua autoria, os dois volumes de Identificação de um País, os dois primeiros volumes da História de Portugal da Editorial Estampa, por ele coordenada, e a Biografia de D. Afonso Henriques pensei que ele não me poderia surpreender. Mas surpreendeu! Este Naquele Tempo é uma verdadeira maravilha. Dá um prazer enorme a ler (o que, sou sincera, nem sempre acontecia nalguns livros anteriores, liam-se mais pela competência das informações) e tem a vantagem de se confinar ao caso português. Porque há diferenças entre a vida medieval em Portugal e nos outros países.

Naquele Tempo é uma colectânea de ensaios de História Medieval, que focam temas habitualmente ausentes dos livros de História, como as mentalidades, a sexualidade, os usos e costumes. Iniciarei brevemente uma série com citações deste grandioso livro, mostrando uma Idade Média, muitas vezes, bem diferente daquela que imaginamos.

Esta obra mostra que a era medieval, um período que atravessa mil anos de História, possui várias fases. As mentalidades, os usos e os costumes eram bem diferentes na era visigótica, no início da formação da nacionalidade portuguesa e nas épocas de D. Dinis, D. Afonso IV, ou D. João I.

12 de janeiro de 2012

Um outro Afonso Henriques

D. Afonso Henriques ficou conhecido como o "arreda" porque foi umas das primeiras pessoas em Portugal a ter automóvel, numa altura em que os caminhos (não se podiam chamar estradas) não estavam preparados para receber estes novos veículos. Em vias desenhadas para carros de bois e cavalos, sobressaia o automóvel do Infante que, como devem calcular, não teria muita facilidade de passagem para a velocidade, na altura, supersónica que podia chegar aos 40 kms hora. Assim, para facilitar a sua mobilidade, D. Afonso Henriques utilizava a sua voz como sinal de passagem, gritando constantemente "arreda!", para conseguir desimpedir a via.

Não se trata de um texto humorístico, mas muito sério. É claro que o nosso primeiro rei não foi o único português a chamar-se Afonso Henriques. Um outro, foi o filho cadete de D. Luis e Dª Maria Pia, que esteve a um passo de se tornar em D. Afonso VII, Rei de Portugal e dos Algarves D'Áquem e D'Álem Mar em África.


Era uma das personalidades que esperava a família real no cais do Terreiro do Paço no dia 1 de Fevereiro (de 1908), ao lado do seu sobrinho D. Manuel (...), acompanhando a comitiva no seu automóvel nessa curta viagem que terminou tragicamente na esquina da Rua do Arsenal. (...) Não fosse a fortuna (ou má pontaria) de o tiro que acertou em D. Manuel apenas lhe tivesse atingido num braço e o "Arreda" teria deixado nesse dia de ser o bem-disposto infante para ser aclamado D. Afonso VII.

Depois do regicídio, o Infante D. Afonso Henriques fixou residência em Itália e casou com uma cidadã americana. Morreu em 1920 e foi o primeiro Bragança a regressar do exílio para o panteão de São Vicente de Fora.