Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

14 de janeiro de 2025

O rosto de D. Dinis

 

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Constatei, nas redes sociais, que muitas pessoas ficaram chocadas com esta reconstrução do rosto de D. Dinis, apresentada no passado dia 7, nos 700 anos da sua morte. Há quem faça mesmo disto uma anedota, rindo-se e dizendo piadas.

Não sei se quem brinca com o assunto pretende passar um atestado de incapacidade aos autores da reconstrução. O rosto do rei português foi reconstruído através de impressão 3D na Liverpool John Moores University FaceLab, sob coordenação científica da antropóloga Eugénia Cunha, da Universidade de Coimbra, que fez parte da equipa multidisciplinar encarregada do Projeto de Conservação e Restauro do Túmulo de D. Dinis.

Não tenho competência para avaliar o trabalho da Liverpool John Moores University FaceLab. E nunca saberemos se estas reconstruções faciais estão realmente perto da realidade. Mas todo este estranhamento tem seguramente a ver com a imagem de D. Dinis formada na cabeça de todos nós. E sob que pressupostos?

D. Dinis, um rei poeta, culto, fundou a Universidade e amava a vida (significa: as mulheres - como se só os homens pudessem amar “a vida”). Ora, estes pressupostos não formam, na nossa cabeça, o rosto de um homem envelhecido e triste. Além disso, é apresentado com olhos azuis e, apesar do cabelo quase todo branco, pode adivinhar-se ter sido algo como loiro. Isto parece desagradar a muita gente, vá-se lá saber porquê.

Vamos por partes.

Rei poeta, culto, fundador da Universidade portuguesa: disto, não há dúvida. Mas que nos diz sobre a sua aparência? “Amava a vida” - não mais do que os outros. D. Dinis teve amantes, sim, como (quase) todos os reis. Na verdade, porém, ele está longe de ser o monarca português com maior número de amantes e de filhos ilegítimos.

Esta reconstrução mostra-nos como ele era à altura da sua morte e bem pode estar perto da realidade. D. Dinis viveu os seus últimos três anos com graves problemas de saúde. Por duas vezes, foi atingido, calcula-se, por um AVC, ou enfarte. Da segunda vez, morreu mesmo, aos 64 anos. E não esqueçamos que os cuidados médicos, na sua época, não se podem comparar aos de hoje.

Há, porém, ainda a referir um outro motivo, talvez o maior, para o seu desgaste: nos últimos cinco anos de vida, D. Dinis viu-se a braços com uma guerra civil, uma guerra contra o seu próprio filho e herdeiro, que dilacerou o reino. Uma guerra não só de armas e combates, mas também de muitos nervos, raiva e desespero (como só o pode ser, entre pai e filho). Quando faleceu, a 7 de Janeiro de 1325, D. Dinis era um homem esgotado, quebrado, amargurado.

No decorrer deste ano, talvez sejam reveladas informações mais concretas sobre a sua morte. Está prevista uma "exposição itinerante dedicada à divulgação dos resultados do Projeto de Conservação e Restauro do Túmulo D. Dinis, a inaugurar a 18 de abril". Vai ainda haver um "Congresso Internacional, a decorrer dias 27 e 28 de junho, no Mosteiro de Odivelas", e vai ser lançado um "livro monográfico/catálogo que reunirá o conjunto de estudos interdisciplinares desenvolvidos", com data prevista em outubro.

O avô materno de D. Dinis era Afonso X, rei de Castela, apelidado de o Sábio. Também ele culto e poeta, revolucionou a vida cultural toledana, ao reunir letrados cristãos, judeus e muçulmanos, fomentando a tradução, para latim e castelhano, de muitos tratados árabes sobre várias áreas do saber, como a medicina e a astrologia. Foi autor de um novo Código Legal e de vários livros, incluindo uma História da Hispânia. Também escreveu versos e compôs música, são de sua autoria as Cantigas de Santa Maria, escritas em galaico-português (a língua dos poetas da época), um dos maiores tesouros literários medievais da Península Ibérica.

Afonso X o Sábio tinha ascendentes germânicos e costuma ser representado como ruivo. Na sua biografia do rei-poeta, o Professor José Augusto de Sotto Mayor Pizarro é perentório a afirmar que D. Dinis era igualmente ruivo, não só baseado nas observações feitas, por altura da “abertura acidental” do seu túmulo, em 1938 (p. 274), como pelos genes que herdou. Passo a citar da citada biografia (mesma página):

"D. Dinis não foi o único ruivo da sua família, uma vez que o seu tio materno, o infante D. Fernando de Castela, herdeiro de Afonso X falecido em vida do pai, também era ruivo (…) esta herança terá sido recebida do lado da mãe de Afonso X de Castela, a rainha D. Beatriz, filha de Filipe da Suábia e neta paterna do grande imperador Frederico I, de alcunha o Barba Ruiva."

No túmulo de D. Dinis, foram de facto encontradas evidências de cabelos ruivos, castanhos claros e grisalhos. E o Professor Sotto Mayor Pizarro diz ainda, na página 275 da citada obra, que o rei-poeta possuía possivelmente “olhos claros”.

10 de janeiro de 2025

Uma jovem de vinte anos, uma égua e uma viagem da Alemanha até Portugal (2)

 

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A viagem de Jette (Iéta), que se propôs ir da Alemanha até Portugal a cavalo, começou da melhor maneira, a 8 de setembro do ano passado. Teve sorte com o tempo. Houve mais sol do que o costume e as temperaturas mantiveram-se amenas durante todo esse mês. Além disso, o Norte da Alemanha é plano, facilitando o avanço, e o alojamento estava planeado para a primeira semana.

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A fim de não cansar demasiado a Pinou, que carregava com a bagagem, Jette não passava os dias a cavalgar, a grande velocidade, como gostamos de imaginar. Na maior parte das vezes, limitava-se a uma marcha lenta e descontraída. E, não raro, desmontava e caminhava ao lado do animal, guiando-o pela rédea. Fazia também muitas pausas, a fim de que as duas pudessem descansar e alimentar-se.

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Passado uma semana, Jette tinha vencido cerca de 160 km por terrenos aprazíveis, cheios de erva fresca para a Pinou. Encontrava-se na pequena localidade de Wunstorf, no dia 15 de setembro, e os pais e o namorado foram passar o fim-de-semana com ela. Jette encetou a viagem na segunda-feira, mas, apesar do tempo continuar bom, caiu numa onda de tristeza, depois de ter estado com os entes queridos. Sentia, todos os dias, faltar-lhe a motivação para continuar.

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O facto de já não ter alojamentos reservados, tornou-se, porém, vantajoso. Livrara-se da obrigação de vencer determinada distância, a fim de alcançar um destino marcado. E encontrar um local para dormir revelou-se mais fácil do que o esperado. As pessoas que Jette ia encontrando pelo caminho faziam-lhe perguntas e, inteirando-se da sua história, gostavam, geralmente, de a ajudar. Logo lhe indicavam um local, em determinada aldeia, onde ela poderia pernoitar, com estábulo para a Pinou. Essas casas de lavradores nem sempre tinham um quarto à disposição para ela, mas autorizavam-na a montar a sua tenda nalgum relvado, ou a dormir numa roulotte, caso a tivessem. Por vezes, convidavam-na para jantar.

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Havia outras surpresas agradáveis. Num dia, estavam ela e a Pinou a fazer uma pausa, quando um carro parou à sua frente. Depois das perguntas habituais, Jette foi convidada a deslocar-se à quinta dessas pessoas, onde lhe ofereceram maçãs e água para a continuação da viagem. Num outro dia, passando por uma pequena localidade, viu uma gelataria e resolveu comer um gelado. Um homem abordou-a, ao vê-la acompanhada de um cavalo, e, ao saber dos seus planos, fez questão de lhe pagar o gelado, surdo às tentativas de recusa da moça.

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Ir às compras, de vez em quando, era inevitável e, à boa maneira western, Jette amarrava a Pinou à entrada dos estabelecimentos, suscitando olhares estupefactos. Normalmente, porém, as pessoas eram simpáticas. Pediam-lhe autorização para as fotografar e algumas até se atreviam a fazer festas à égua. Nestes, como noutros casos, não lhe era possível evitar passar pelo meio das localidades. A sua presença suscitava sempre grande surpresa e interesse. Nem toda a gente a encarava satisfeita, mas não a molestavam.

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Depois de duas semanas de jornada, e ainda na sequência da ressaca provocada pelo encontro com os pais e o namorado, Jette confessou, no seu diário de viagem (Tag 14), estar a ser extremamente cansativo. Todos os dias se tinha de adaptar a novos locais e responder às mesmas perguntas, além de se lhe depararem constantes desafios. Depois de encontrado alojamento, tinha de cumprir muitas tarefas, até poder descansar: livrar a Pinou de toda a bagagem, tratar da alimentação da égua e, por vezes, limpá-la, antes de se tratar a ela própria.

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Por vezes, tinha ainda de montar a tenda. De manhã, em sentido inverso: desmontar a tenda, tratar da Pinou e dela, reunir toda a bagagem, selar a Pinou e carregá-la. Por outro lado, escreveu ela, era igualmente interessante conhecer locais e pessoas diferentes todos os dias. E aprendia algo a cada desafio. No fundo, era esse o sentido da viagem: amadurecer a cada nova experiência.

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Deparava constantemente com obstáculos, obrigando-a a grandes desvios, por vezes, significando voltar vários quilómetros atrás, apenas para os recuperar em seguida. Certa vez, preparava-se para atravessar uma auto-estrada e encontrou a ponte fechada por motivo de obras. Lá lhe indicaram uma alternativa, mas também isso lhe custou vários quilómetros.

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Numa zona de ribeiros, deu com várias pontes barradas com um pequeno poste. Tratava-se de um percurso pedonal e de ciclistas e os postes evitavam que as pontes fossem usadas por motorizadas ou outro tipo de veículo a motor. Mas impediam igualmente a sua passagem com a Pinou. E Jette pensou que uma família em passeio com um carrinho de bebé veria o seu avanço igualmente barrado.

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Em dias de chuva, dava com caminhos impossíveis de serem passados devido à grande quantidade de lama. Jette receava que a égua escorregasse e partisse uma perna. Via-se constantemente obrigada a procurar alternativas à rota planeada, daí esta sua viagem ser bem mais longa do que a rota pela auto-estrada, ou mesmo por uma estrada nacional.

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Apesar de todas as canseiras e desânimos, Jette prosseguia. E, ao 21º dia de viagem, a 28 de setembro, chegou a Krefeld, cidade de 240.000 habitantes, na Renânia do Norte-Vestfália. Jette fez quase 570 km para lá chegar. De Hamburgo a Krefeld, pela auto-estrada, são cerca de 400 km.

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A atravessar o rio Reno numa barcaça (ferry)

 

Nota: Todas as fotografias e informações aqui divulgadas se podem encontrar no diário de viagem de Jette:

https://www.instagram.com/jette.horse.journey/

@jette.horse.journey

3 de janeiro de 2025

Uma jovem de vinte anos, uma égua e uma viagem da Alemanha até Portugal (1)

 

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Jette é uma alemã de vinte anos, moradora nos arredores de Hamburgo e cuidadora da égua Pinou.

Muitas meninas alemãs são fascinadas por cavalos, uma fascinação que começa pelos cinco ou seis anos de idade. As escolas de equitação proliferam e o sexo feminino está em clara maioria, tanto a nível de alunos, como de professores. As crianças mais pequenas iniciam a sua aprendizagem com póneis.

Muitas vezes, essa fascinação acaba por desaparecer na adolescência. Caso se mantenha, os pais com mais posses compram cavalos para as filhas e alugam lugares nos estábulos das escolas ou de quintas. As moças pertencentes a famílias, cuja situação financeira não permite tal aquisição, prontificam-se a cuidar dos animais e a limpar os estábulos em troca da prática gratuita de equitação.

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Jette (pronuncia-se Iéta) trata da Pinou desde 2023. No ano passado, porém, a dona da égua resolveu mudar-se para Portugal, para os lados da Bemposta, alguns quilómetros a norte de Castelo Branco. Penso que essa senhora terá mais animais e não sei pormenores da mudança. Sei que ela não levou logo a Pinou, deixando-a num estábulo conhecido e aos cuidados de Jette, até organizar o seu transporte.

Jette tinha, nessa altura, concluído o liceu e estava indecisa sobre o que deveria fazer a seguir. Muitos jovens alemães tiram um ano para viver no estrangeiro, ou exercer alguma actividade relacionada com serviço social, no seu país, antes de prosseguirem os estudos. Em tom de brincadeira, a mãe de Jette sugeriu: “porque não levas tu a Pinou, fazendo uma viagem a cavalo até Portugal?”

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Depois de uma certa perplexidade inicial, a ideia não mais saiu da cabeça de Jette. E contactou a dona da Pinou que, depois de refletir uns dias, lhe respondeu: “Faz isso, então, se é o que queres”.

Decidida a provar a si própria e aos outros de que seria capaz, Jette começou a treinar mais intensamente com a égua e a preparar a viagem. Os pais e o namorado colaboraram, discutindo os planos com ela. Iniciando-se a jornada em Setembro, e como seria irrealista atravessar os Pirenéus no Inverno, o pai prontificou-se a levá-la de carro através da França, até Bilbao, caso ela realmente conseguisse atravessar a Alemanha, de Hamburgo até à fronteira francesa, no Saarland (quase 1000 km, na rota escolhida por ela; a viagem na auto-estrada é 300 km mais curta).

Reservaram dormidas para a primeira semana, em locais de turismo rural, com distâncias de 30 a 40 km entre eles. Depois, Jette teria de se desenvencilhar sozinha, munida de uma tenda, deixando o destino decidir. Os pais e o namorado comprometeram-se igualmente a ir buscá-la, fosse onde fosse, caso ela se achasse incapaz de prosseguir, ou algo lhes acontecesse (a ela e/ou a Pinou).

A 8 de setembro de 2024, Jette iniciou a viagem da sua vida.

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Nota: Todas as fotografias e informações aqui divulgadas são retiradas do diário de viagem de Jette:

https://www.instagram.com/jette.horse.journey/

@jette.horse.journey

8 de dezembro de 2024

Assim se pariu o Brasil

 


De Pedro Almeida Vieira, tinha já lido O Profeta do Castigo Divino e Corja Maldita, nos idos de 2012/2013. Ao contrário desses dois romances históricos, Assim se pariu o Brasil não é ficção. Na contracapa fala-se, porém, de “numa prosa culta mas cheia de humor”. Pode-se escrever um livro sobre factos históricos, usando humor?

Enfim, não conhecer a História do Brasil colonial ajudou à minha decisão de comprar o livro. Demorei, porém, a pegar nele, adquirido já em 2016. E acabou por me surpreender pela positiva.

O ritmo é o de uma narrativa de aventuras e, apesar de realmente se notar um travo humorístico, nunca é manipulador, o que, na minha opinião, se trata de um equilíbrio difícil de conseguir. Assim aprendemos, por exemplo, como o pequeno Portugal conseguiu ganhar tanto território à potência espanhola; como, neste caso, “o tempo dos Filipes” acabou por beneficiar o nosso país; como os colonos portugueses, auxiliados por indígenas e africanos, lograram expulsar franceses e, principalmente, neerlandeses, que se desunharam para arrebanharem o Norte sertanejo e, enfim, onde se explica como o enorme Brasil conseguiu garantir a sua unidade, enquanto as colónias espanholas se desmembraram em vários países.

Ou seja, recomenda-se. O livro contém ainda ilustrações de Enio Squeff.

1 de dezembro de 2024

Os Anos

 


Annie Ernaux, vencedora do Nobel da Literatura em 2022, escreve sobre a sua vida, usando, porém, uma nova forma narrativa, que se poderia apelidar de "autobiografia impessoal coletiva". Nunca utiliza a primeira pessoa, oscilando entre a terceira do singular e a primeira do plural.

As memórias vão surgindo, através de fotografias. No entanto, Annie Ernaux utiliza o pronome "ela" para falar de si própria e o pronome "nós", ao descrever a vida e os acontecimentos. Partindo de uma menina, que se torna adolescente, mulher jovem, mulher madura, mulher idosa, Annie Ernaux conta, não só a sua história, como a da França e do resto do mundo (vista de França), desde meados dos anos 1940 a 2006: o período pós Guerra Mundial, o liceu, a universidade, a escrita, um casamento que se adivinha efémero, de Gaulle, 1968, a suposta emancipação da mulher, Mitterand, a globalização, o envelhecer...

Annie Ernaux liga a vida pessoal, do dia-a-dia, com os grandes acontecimentos políticos e históricos. Porque é disso mesmo que são feitas todas as nossas vidas. E fá-lo, claro, sob a perspetiva feminina. O melhor é mesmo deixar falar o livro:

"As férias grandes serão uma longa travessia de tédio, de atividades minúsculas para ocupar os dias: (...) ir à cidade comprar champô e um livro da coleção Petit Classique Larousse, passando, com os olhos no chão, em frente ao café, onde os rapazes jogam flipper." (p. 46)

"Tínhamos a certeza de que com a pílula a vida ia dar muitas voltas, seríamos de tal modo livres em relação ao nosso corpo que era assustador. Livres como um homem." (p. 72)

"A religião católica, sem qualquer cerimónia, desaparecera do contexto das nossas vidas (...) A Igreja já não aterrorizava o imaginário dos adolescentes na puberdade, já não regulamentava as relações sexuais e o ventre das mulheres saíra da sua zona de influência. Ao perder o seu principal campo de ação - o sexo -, a Igreja perdera tudo." (p. 124)

"Os filhos, sobretudo os rapazes, dificilmente largavam o ninho familiar, o frigorífico cheio, a roupa lavada, o ruído de fundo das coisas da infância. Faziam amor, com todo o à-vontade, no quarto ao lado do nosso. Insatalavam-se numa juventude longa e duradoura, o mundo parecia não estar à sua espera." (p. 140)

"Para toda a gente, inclusive para os migrantes clandestinos amontoados num bote em direção à costa espanhola, a liberdade tinha por rosto um centro comercial, hipermercados a desabar sob o peso da abundância. Parecia natural que os produtos chegassem do mundo inteiro, circulassem livremente, e que os homens fossem reprimidos nas fronteiras." (p. 177)

Um grande livro. Não deixem de ler!

Nota: Tradução de Maria Etelvina Santos